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domingo, 27 de dezembro de 2009

Ano Novo de Novo



"Hoje é um novo dia de um novo tempo que começou...."
Já pararam para pensar onde estávamos em cada primeiro dia de cada inicio de ano ?
Eu não consigo me lembrar de todos.
Quando eu era criança, ouvia sempre falar que o mundo acabaria no ano 2000 ,estamos entrando em 2010 e nada do mundo acabar, ainda bem!
10....9....8.....E acaba o ano de 2009, fica lá pra trás com todas coisas boas e ruins, pessoas queridas que ficaram nesse barco que viaja para a saudades.
Meu pai é uma delas...Quanta saudades! Ainda ao brindar com a chegada deste ano que agora termina, abracei-o e lhe desejei Feliz Ano Novo.Talvez tenha sido feliz para ele que foi morar no céu, mas para nós que o perdemos , foi ruim, doeu muito!
Quando chega no final do ano fazemos o balanço  e vemos que deixamos de fazer muitas coisas que gostaríamos de ter feito e prometemos que no próximo ano tudo será diferente.
Mais um ano esta terminando e todos têm projetos novos para ele. Mas realmente já pensou no que você não terminou? No que tinha prometido para si mesmo no ano passado? Você realmente tem aproveitado o presente da sua vida?
Por outro lado, esta história de tempo e ampulheta é muito complicada.O ano novo pra nós não é ano novo pra todo mundo
Cada cultura comemora seu Ano Novo. Os muçulmanos têm seu próprio calendário que se chama “Hégira”, que começou no ano 632 d.C. do nosso calendário. A passagem do Ano Novo também tem data diferente – 6 de Junho, foi quando o mensageiro Mohammad fez a sua peregrinação de despedida a Meca.
As comemorações do Ano Novo judaico, chamado “Rosh Hashanah”. É uma festa móvel no mês de Setembro (este ano foi 18 de Setembro). As festividades são para a chegada do ano 5770 e são a oportunidade para se deliciar com as tradicionais receitas judaicas: o “Chalah”, uma espécie de pão e além do pão, é costume sempre se comer peixe porque ele nada sempre para frente.
O primeiro dia do ano é dedicado à confraternização. É o Dia da Fraternidade Universal. É hora de pagar as dívidas e devolver tudo que se pediu emprestado ao longo do ano. Esse gesto reflete a nossa necessidade de fazer um balanço da vida e de começar o ano com as contas acertadas.
O que mudou? Você mudou?Se pretende mudar saiba que é  dentro de você que as mudanças são feitas todos os dias.
Em qualquer dia do ano podemos mudar, não precisa ser exatamente no primeiro dia de ano nenhum, pode ser hoje!
Precisamos buscar dentro de nós uma mudança de hábitos. Se não fizermos as mudanças necessárias, tudo continuará como sempre. E não vai ser no dia 31 de dezembro que a transformação se fará por força do calendário.Já passei muitos réveillons em festas, rodeada de pessoas, algumas felizes, de cara limpa, outras com sorriso de retrato e copo na mão...O calendário é feito de folhas de papel.
O bom disso é que todos os dias, podemos virar a página, se assim desejarmos.
Mas saiba que ai começa a contagem regressiva , menos um ano... menos 2... menos 3...


Wanda Wenceslau

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Reflexão da quadra


Estando confinada ao circuito de cama, cadeira de rodas, sofá, cadeira de rodas, idas à casa de banho, à cozinha, onde me servem o almoço e fumo um cigarro, à casa de jantar, tudo com moveis desviados do sitio para que eu possa passar, penso muito, pelo menos sem ser interrompida por outras coisas, penso que este Natal não vou celebrar como nos outros anos, com pequenas oferendas, escolhidas com o eterno balanço entre vontade e disponibilidade financeira, nem tão pouco ofertar coisas feitas por mim, não consigo elabora-las, não vou conseguir amassar filhoses, temperar o borrego, decorar a casa, colocar a mesa com primor, bater muito bem a massa do bolo e decorar depois, encher a casa de calor, cheiros de canela, não vou passear nas ruas devagar a ver as luzes de Natal por vezes frias, mas ainda assim luzes, não vou buscar o meu presépio velho e feiíssimo, com moinhos do tamanho das ovelhas, um burro de plástico que os meus filhos em pequenos insistiram em juntar, não sei porquê tenho dois São Josés, mas não faz mal, parece que Jesus tinha vários pais, de qualquer das formas as crianças deveriam ser filhos de todos e vai-se lá saber se não é um pronuncio das novas famílias. Não faz muito tempo, uma amiga, católica, perguntou-me, não sendo eu católica, porque festejo o Natal.
Respondi-lhe que foi a época em que aprendi a celebrar a família, a fazer do pouco muito, a criar novas esperanças, a celebrar a infância, que antes de Jesus já era uma  Festa do equinócio do Inverno, que juntando a isso tudo o nascimento de uma criança,  que quando adulto, lutou pela Justiça Social, para mim está bem.
Ela conhece-me bem, sorriu e disse que estava só à espera da minha explicação, que sabia de antemão que não eram as prendas que me moviam a ser uma fanática do Natal, agnóstica convicta, pouco dada a consumismos.
Mal sabíamos nós que nesse dia, ao despedir-me à pressa para dar a prenda e os parabéns à minha mãe, iria torcer a pata que me invalida a celebração tradicional, de juntar família na minha casa, fazer as iguarias que cada um aprecia mais, embrulhar pela noite dentro carinho em forma de presente, com papel colorido e fitas brilhantes.

Ana Camarra

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

El Gordo, Don Pedregullo, un caminhon de macacos e o espanhol Pepe



El Gordo cruzou os caminhos do espanhol Pepe (José Conegero Lopes) em Málaga, Espanha, no ano de 1889, por uma decisão da mulher Ana. Esta saíra para comprar "unas sardinas" para fritar no almoço, mas, convencida por um grupo de vizinhos, com o dinheiro, entrou no bolão do "El Gordo de Navidad", loteria que corre na Espanha, todos os anos, no dia 22 de dezembro.

Assim, naquele dia, naquele longínquo ano, o espanhol Pepe comeu "tortillas" de batatas, mas acertaram "El Gordo de Navidad" bem na cabeça. Eram muitos malaguenhos e, dividido e repartido o prêmio, Pepe pode dar o pontapé inicial de um sonho acalentado por muitos europeus: fazer as Américas.

As passagens dele, da mulher e dos seis filhos, a maior Carmem, com 14 anos, e mais o percurso do navio Itália, que em 1902 os deixou em Santos até a Hospedaria dos Imigrantes, em São Paulo, onde foram registrados, e depois o terreno e a casa alugada, tudo foi patrocinado por El Gordo.

Faltava construir a casa e, para tanto, arrumar emprego na cidade, em uma obra em que nesta o espanhol sabia fazer um pouco de tudo.

Foi, então, que um outro cruzou seu destino. Foi Don Pedregullo, porque na primeira empreitada que conseguiu vaga havia uma condição: "aqui só poderemos admitir o senhor e começar a obra quando chegar o Pedregulho".

Vieram noites e noites de insônia e dias e dias de apreensão. Sempre voltando com a mesma resposta: lamentamos, mas "o Pedregulho ainda não chegou."

- "Quién será este Don Pedregullo?"

O espanhol Pepe e a mulher Ana acreditavam ser alguém muito importante, tanto que após idas e vindas já o chamavam de Don Pedregullo, e era quem autorizava as obras aqui em São Paulo. Procurar outra obra nem pensar, porque se não chegava nesta não chegaria em nenhuma outra da cidade.

Isto ele a mulher e os filhos deduziram durante os almoços e jantares, preocupados porque o dinheiro ia sendo gasto e ainda pretendiam construir a casa no terreno comprado.

Dias e dias se passando e nada de Don Pedregullo aparecer. Aparecia sim o espanhol, cansado, desanimado, de volta, isto até certa manhã, quando, ao chegar na obra, recebeu uma proposta. "Temos um trabalhinho para amanhã. É que precisamos sair para tentar saber por que o Pedregulho não chega e fomos avisados de que chegará na parte da manhã o caminhão de Macacos. Precisamos de alguém para recebê-lo, conferir a quantidade e assinar a nota de serviço. Depois é só colocar os macacos dentro do depósito e aguardar nossa chegada. Chegaremos ao cair da tarde".

Assustada, Ana achava que seria melhor voltar e retirar a palavra dada, porque un caminhão de macacos é um perigo, e para quê os macacos? Não, alguma coisa não estava certa...

Mas espanhol não retira palavra dada.

Manhã seguinte lá estava ele, junto ao depósito, esperando a chegada dos macacos.

- "Cuantos serón de macacos?" - preocupava-se assustado também ele.

Tinha bolado um plano. Quando chegasse o caminhão de macacos, subiria no muro e tiraria a cinta e acuaria os macacos em um canto e, lá do alto, tomaria conta para nenhum escapar.

Passou a manhã, depois o meio do dia e a tarde começou a cair lentamente.

Faminto, despenteado, suado, porque ajudara a descarregar dois caminhões que chegaram, um após o outro. Um cheio de pedras grandes, para calçamento de ruas, e no outro pequenas pedrinhas que descarregaram no depósito, deixando-o mais temeroso ainda, porque sobrou pouco terreno para os macacos e mais uma preocupação: e se atirassem pedras e se subissem nas pedras grandes e se fugissem ou se machucassem?

Respirou aliviado só quando o pessoal apareceu de volta, sorrisos largos, felizes.

- O senhor deu sorte, seu Pepe! Amanhã mesmo vamos começar e o senhor já está contratado. Agora é nosso convidado, vamos sair para comemorar!

- "Y Don Pedregullo, y el caminhon de macacos?" - Ana quis saber assim que o viu entrar todo alegre, vermelho, meio tocado, "bebió unos tragos"...

- "Son piedras, Ana! Acá en San Pablo piedras grandes são macacos e las pequenãs se llaman pedregullos!".






Trinidade Pantiga Espinosa


Obs: Os paralelepipedos para calçamento de ruas e calçadas, aqui em São Paulo, são chamados de macacos.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Coisas que a vida ensina depois dos 40



Amor não se implora, não se pede, não se espera...
Amor se vive ou não.
Ciúmes é um sentimento inútil. Não torna ninguém fiel a você.
Animais são anjos disfarçados, mandados à terra por Deus para
mostrar ao homem o que é fidelidade.
Crianças aprendem com aquilo que você faz, não com o que você diz.
As pessoas que falam dos outros pra você, vão falar de você para os outros.
Perdoar e esquecer nos torna mais jovens.
Água é um santo remédio.
Deus inventou o choro para o homem não explodir.
Ausência de regras é uma regra que depende do bom senso.
Não existe comida ruim, existe comida mal temperada.
A criatividade caminha junto com a falta de grana.
Ser autêntico é a melhor e única forma de agradar.
Amigos de verdade nunca te abandonam.
O carinho é a melhor arma contra o ódio.
As diferenças tornam a vida mais bonita e colorida.
Há poesia em toda a criação divina.
Deus é o maior poeta de todos os tempos.
A música é a sobremesa da vida.
Acreditar, não faz de ninguém um tolo. Tolo é quem mente.
Filhos são presentes raros.
De tudo, o que fica é o seu nome e as lembranças a cerca de suas ações.
Obrigada, desculpa, por favor, são palavras mágicas, chaves que abrem portas para uma vida melhor
O amor... Ah, o amor...
O amor quebra barreiras, une facções,
destrói preconceitos,
cura doenças...
Não há vida decente sem amor!
E é certo, quem ama, é muito amado.
E vive a vida mais alegremente...

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Aquecimento Global




Ele tem inveja do que a natureza faz.Ele tenta destruí-la de todas as maneiras.Ele engole vales verdes e os transforma num imenso lago profundo para gerar energia elétrica.Tudo que é bonito causa inveja a ele. Ele gostaria que tudo fosse feio e sem graça.Ele inveja os grandes templos e construções históricas, vai destruindo e colocando arranha-céus descomunais e gigantescos em seu lugar.Destrói florestas, transformando-as em desertos áridos .Transforma geleiras em oceanos .Ele inveja o bom discernimento e a educação e coloca desordem, desamor e egoísmo nas pessoas.Ele destrói rápido o que Deus criou e a natureza demorou milênios para aprimorar.Ele só não destruiu ainda o ser humano porque precisa de sua cumplicidade para destruir o que resta do planeta.O nome dele? Progresso!

Wanda Wenceslau

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Ouro de tolo



Ganância, Arrogância, Avidez, Cupidez, Ambição, Insatisfação. Está intrínseca na personalidade humana a busca pela realização pessoal. Somos, por natureza, insatisfeitos. Estamos sempre a procura de alguma coisa que nos complete.
Acreditem, a insatisfação está presente no coração de todos. Nos barracos de madeira à beira da estrada, nas suítes presidenciais dos grandes hotéis de luxo. Sempre encontraremos pessoas insatisfeitas.
Obviamente, é sempre mais fácil aceitá-la na “moradia” humilde de uma favela. Entretanto, com certeza, a encontraremos também, e não raramente, entre àquelas pessoas que aparentemente atingiram as suas ambições pessoais e sociais.
Pessoas que, a nosso ver, possuem tudo, mas são infelizes. Algo lhes falta. E querem mais!
Querem tanto quanto aqueles que ainda sequer possuem o básico para a sua sobrevivência.
Por isso, na maioria das vezes, não olham para os menos favorecidos. Não olham, pois não percebem a pobreza que se avizinha à sua casa de luxo, ao seu carro zero km.
Vemos com os olhos, mas só percebemos e sentimos com o “coração”. E seus olhos vêem a miséria, mas não a sentem. O seu coração não percebe a amargura do humilde, pois ele mesmo está amargurado.
Amargurado porque precisa trocar o seu carro por um modelo mais novo. Amargurado porque precisa reformar a sua casa. Precisa manter e melhorar o seu padrão de vida. Precisa reservar e acumular bens para o “futuro”.
Futuro?! Como se tivéssemos qualquer controle sobre o próximo segundo de nosso futuro imediato.
Não há futuro! Não há futuro, pelo menos não individualmente, enquanto ele não se concretizar como realidade no presente.
De fato o futuro é um tempo que só pode ser almejado se o idealizarmos no coletivo.
O futuro da Raça Humana é que nos garantirá que nossos filhos e nossos netos tenham a possibilidade de lutar pela sua sobrevivência.
Elegemos a satisfação pessoal e material como prioridades principais de nossas vidas. É obvio, nunca seremos completos. Jamais estaremos satisfeitos.
O “material” se decompõe. A carne se putrefaz. O rijo e novo envelhece. O futuro transforma-se rapidamente em passado.
Você lembra, em 73, quando Raul Seixas lançou a música “Ouro de Tolo?” – “... eu devia estar satisfeito porque consegui comprar um Corcel 73”.
Eu tenho um. Você quer comprar?
O que já foi sonho de consumo num passado recente, hoje é velharia. Lixo que ninguém mais quer.  Sucata.
O ser humano, enquanto indivíduo, olha unicamente para os seus interesses em detrimento dos alheios.  
Esquece que um futuro melhor para os seus entes queridos só será possível se construirmos para viver um mundo melhor.

Wanda Wenceslau

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Carta a Papai Noel




Querido papai Noel
Esse ano eu não quero brinquedo, quero outro presente. Nesse Natal, quando meu irmãozinho Jesus faz aniversario queria que você fosse na minha casa e em todas as casas do mundo e conversasse com mamãe e com papai e com todas as mamães e papais do mundo.
Diga a eles que as crianças gostam muito das baleias, das tartarugas, dos golfinhos e de todos os bichinhos do mundo, a gente também gosta das arvores, de flor, de rio e cachoeira.

Fale pra eles pararem de destruir o planeta, porque ai não vai ter mais Natal e Jesus vai ficar muito triste.

Nesse Natal papai Noel eu quero um futuro de presente

Assinado
Menino do Planeta Terra

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Somos todas as mulheres do mundo





Tem dias que eu acordo querendo ser Joana D´Arc. Vestir minha armadura de ferro para enfrentar os meus demônios. Ter a força de lutar pelo que eu acredito, nem que o final da minha história seja na fogueira. Em outros queria ser Agatha Christie e inventar pra minha vida grandes mistérios em viagens pelo Orient Express. Ou talvez como Clarice Lispector, responder com páginas cínicas aos tapas que a vida às vezes distribui. Quem sabe até me embriagar e cantar as amarguras dos meus amores com a voz rouca da Billie Holiday. Ser Frida Kahlo e assumir todas as minhas diferenças, pintar numa tela as minhas entranhas, me transformar na musa de Serge Gainsbourg, prazer, sou Jane Birkin. Atirar brioches pela janela e ser lembrada como Maria Antonieta, a mulher mais fútil da história. Tem dias para tudo, até para ficar feliz de ser apenas eu.


Somos tantas, as vezes nem é questão de dias..........

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Não escapas mais!






Mas vejam só quem está voltando! Arrependeu-se e voltou! Te maltrataram por ai, vejo que estás com o corpo e alma ferida.Olhar baixo, envergonhado.
Buscavas o que? Pensavas que te dariam o tratamento e o carinho que te dou? Viu como é difícil a vida lá fora?Achavas que outra esperaria por você e te receberia numa boa?Deves ter passado frio e fome.Você está com um aspecto horrível! E essa ferida? Está feia, vamos ter que cura-la.
Com certeza você sentiu minha falta.Me chamou e eu não te escutei.Procurou  o caminho de volta sabendo que aqui terias mordomias e mimos diversos! Seu safado! Eu deveria fechar a porta e não te deixar entrar, mas sei que sentiria tua falta, assim como senti desde que você sumiu!
Saiu de mansinho na sexta-feira e só agora retorna com essa cara mais deslavada! Procurei você por toda parte.Já estava até pensando em colocar anuncio no jornal.
Veja se toma jeito e não repitas mais isso! No mínimo devias estar atrás de uma namorada.Pensas que não sei , seu malandro? Pensando bem, acho que vou levar-te ao veterinário aproveito para pedir que te esterilize! Esses felinos! Gatos são independentes demais!
_Michel! Volte! Se você sair de novo vou entregá-lo a Sociedade Protetora dos Animais!

Que droga! Semana passada fui viajar, fiquei quatro dias fora e o gato esta semana sumiu só para me fazer birra! 


Wanda Wenceslau

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Escutatória



ESCUTATÓRIA
Rubem Alves
Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória.Todo mundo quer aprender a falar, ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória, mas acho que ninguém vai se matricular.
Escutar é complicado e sutil.Diz Alberto Caeiro que "não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma".
Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.
Parafraseio o Alberto Caeiro:"Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma".
Daí a dificuldade: a gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.
Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos...
Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64.
Contou-me de sua experiência com os índios: reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio.(Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, [...]. Abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as idéias estranhas.). Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio.
Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que ele julgava essenciais. São-me estranhos. É preciso tempo para entender o que o outro falou.
Se eu falar logo a seguir, são duas as possibilidades. Primeira: "Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado".
Segunda: "Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou". Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada.
O longo silêncio quer dizer: "Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou". E assim vai a reunião.
Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos.
E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir.
Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras.
A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar.
Para mim, Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também.
Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Antes do dia partir




É pieguice, mas antes de dormir, quando o dia que passou está dando o prefixo e saindo do ar, eu penso: o que valeu a pena hoje? Sempre tem alguma coisa. Uma proposta de trabalho. Um telefonema. Um filme. Um corte de cabelo que deu certo. Até uma briga pode ter sido útil, caso tenha iluminado o que andava escuro dentro da gente.

Já para algumas pessoas, ganhar o dia é ganhar mesmo: ganhar um aumento, ganhar na loteria, ganhar um pedido de casamento, ganhar uma licitação, ganhar uma partida. Mas para quem valoriza apenas as megavitórias, sobram centenas de outros dias em que, aparentemente, nada acontece, e geralmente são essas pessoas que vivem dizendo que a vida não é boa, e seguem cultivando sua angústia existencial com carinho e uísque, mesmo já tendo seu superapartamento, sua bela esposa, seu carro do ano e um salário aditivado.

Nas últimas semanas, meus dias foram salvos por detalhes. Uma segunda-feira valeu por um programa de rádio que fez um tributo aos Beatles e que me arrepiou, me transportou para uma época legal da vida, me fez querer dividir aquele momento com pessoas que são importantes pra mim. Na terça, meu dia não foi em vão porque uma pessoa que amo muito recebeu um diagnóstico positivo de uma doença que poderia ser mais séria. Na quarta, o dia foi ganho porque o aluno de uma escola me pediu para tirar uma foto com ele. Na quinta, uma amiga que eu não via há meses ligou me convidando para almoçar. Na sexta, o dia não partiu inutilmente, só por causa de um cachorro-quente. E assim correm os dias, presenteando a gente com uma música, um crepúsculo, um instante especial que acaba compensando 24 horas banais.

Claro que tem dias que não servem pra nada, dias em que ninguém nos surpreende, o trabalho não rende e as horas se arrastam melancólicas, sem falar naqueles dias em que tudo dá errado: batemos o carro, perdemos um cliente e o encontro da noite é desmarcado. Pois estou pra dizer que até a tristeza pode tornar um dia especial, só que não ficaremos sabendo disso na hora, e sim lá adiante, naquele lugar chamado futuro, onde tudo se justifica. É muita condescendência com o cotidiano, eu sei, mas não deixar o dia de hoje partir inutilmente é o único meio de a gente aguardar com entusiasmo o dia de amanhã…

Martha Medeiros

sábado, 7 de novembro de 2009

Então é Natal!



Fui ao supermercado semana passada e já tinham várias renas de pelúcia para pendurar na porta, ou seja, já é quase Natal oficialmente então posso começar a leva de posts sobre traumas de infância, Papai Noel e presentes. Sabe, eu tenho uma certa cisma com datas comemorativas como dia dos pais, das mães, Natal e afins, qualquer data que carregue uma certa obrigatoriedade de cumprir um cronograma e protocolo.
Acabo confraternizando com  as pessoas para seguir o protocolo,para agir socialmente e principalmente para não ser a estraga prazeres.
__Mas como você não gosta de Natal, pessoa sem coração! - alguém mais exaltado grita!
__Calma meu filho, eu já vou explicar, deixa eu divagar um pouco antes.
Quando era criança (faz muito tempo, tá?) era bem legal, não  tinha árvore de Natal, não tinha ceia, só almoço na casa da avó, tinha presente que a mãe ficava pagando as prestações um ano antes.Uma grande mesa para uma grande família. Uma comilança  e uma mistura de "experimenta um pouquinho disto" que depois mandava metade dos convivas para  disputar o sanitário! Nessas datas come-se três vezes mais do que comemos habitualmente.
 À tarde depois do almoço todas as crianças  já tinham cansado dos seus respectivos brinquedos e queriam o do outro.
Crescemos, casamos e fomos mudando a maneira de comemorar o Natal.
O Natal de meus filhos já começava  com a preocupação de conseguir comprar o presente  que todas as crianças queriam, aquele que era anunciado de minuto em minuto na televisão, é capitalismo, fazer o que?. Era uma briga pra se montar a árvore! Ninguém queria cozinhar (como assim, não passo o Natal sem meu salpicão de frango defumado), meu pai já estava ficando velhinho e queria comer a ceia as  seis horas da tarde, minha mãe num ânimo contagiante sempre escolhia esse dia para querer ir cumprimentar todas as vizinhas, por que não ia um dia antes?
As crianças espalhando papel de presentes e brinquedos pela casa toda.As mulheres mais velhas(por que as mais velhas? e não as mais novas?), cansadas e com os dedos queimados, só esperam a hora de tudo terminar para lavar a louça e colocar tudo em ordem e poder ir dormir para descansar o corpo todo dolorido.
Na verdade , acho esse negócio de confraternização de Natal, uma chatice!
Fulano briga o ano inteiro, fala mal do tio, reclama da prima e nesse dia todos resolvem se reunir e serem fofos, porque o espírito de Natal quer. Me poupa gente, não é o cúmulo da hipocrisia escolher apenas um dia do ano para ser uma boa pessoa? A gente não deveria tentar ser uma pessoa melhor a cada dia do ano? Escolher uma época específica para isso me parece deveras suspeito.
E os pobres? Só vão comer nesse dia? Sim, porque nessa época se distribuem cestas de alimentos e todo mundo se torna bonzinho e caridoso, será que é medo do castigo que virá do aniversariante?
Natal, para quem é cristão  mesmo e quer comemorar o aniversário de Jesus Cristo, deveria querer, pelo menos , que o aniversariante estivesse presente, isto é, elevar seu pensamento à Jesus, erguer a taça e dizer:"Feliz aniversário, obrigado por teres existido e teres vindo falar-nos sobre o teu pai"
Vamos combinar uma coisa?Não seja bonzinho só no Natal! Seja quem você é! Faça o que você sempre faz quando não é Natal!Continue não gostando das pessoas que você não gosta.Não saia por ai dando presente a todo mundo e depois ficar até o outro Natal pagando a prestação.O único que deve ganhar presente é Jesus Cristo, e esse, você presenteia todo dia com a sua fé!Ou não?
Agora, se você está só a fim da festa para entornar o caneco e encher a pança, então, seja bem vindo ao clube!

Wanda Wenceslau

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Romeu e Julieta em palco de cemitério






Na tarde tranqüila do domingo gaúcho, um grupo de moças resolveu aceitar o convite que fez a mais irriquieta da turma;
- Vamos dar um passeio até o cemitério?
Marlene, Dany, Zilá, Silvia, Teresinha e Diná, todas residentes nas proximidades do Hospital de Caridade, em Cachoeira do Sul, ao fazerem a combinação, estavam longe de pensar que, momentos depois, quando em jovial bulício paravam frente às sepulturas, comentando a mocidade ou a beleza dos mortos cujas fotografias apareciam nas lousas, ouviriam uma voz sumida, parece que partida das profundezas da terra, transmitindo um apelo patético:
- Tirem-me daqui! Quero água!
As moças empalideceram. Olharam-se estarrecidas e, em questão de segundos, descambavam cemitério afora, olhos esbugalhados de pavor. No portão, encontraram com João Picolotto, pedreiro da necrópole e contaram, com voz entrecortada, o que tinham ouvido. Mais adiante, defronte ao hospital, o Advogado Edyr Lima também era informado do assunto. Em poucos minutos, auxiliados pelos enfermeiros Alberto José e Altamiro Ferreira, o pedreiro e o advogado localizavam a procedência do apêlo. Uma jovem suja e esquálida jazia sobre um túmulo, deitada em trapos, numa imundície e fraqueza de causarem pena.
Enquanto alguns a retiravam, em maca, ela continuava em seu apelo angustioso:
__Quero água! Quero água!
Alguém mais expedito alcançou-lhe uma garrafa cheia do  líquido que ela implorava. A desconhecida bebeu bastante e, em seguida, deitou a vomitar, caindo em total prostração. A notícia, em seguida, ganhou as ruas da Capital do Arroz. Chegou até um clube da cidade, onde o pessoal se entregava a um inocente jogo de roleta, os números substituídos por figuras de animais. Um médico da roda, convidado a ir ao cemitério , negou-se fazendo “blague”:
- Não vou porque não se trata de cliente meu. Os que mandei para lá, tenho certeza, mandei bem mortos.
A descoberta naquele estado, da jovem Vicentina Dorneles, com 18 anos de idade, natural do distrito de Capané, tornava Cachoeira do Sul o palco do mais impressionante e estranho romance de amor. Desaparecida havia 17 meses, em companhia do namorado, João de Oliveira Simões Pires, também com a mesma idade, a jovem dera à luz no mato, completamente sem assistência; e oito meses depois da “delivrance” ainda permanecia como um bicho, escondida no pequeno terraço formado pelo teto de um jazigo. Ali sofreu fome e frio, agüentou as chuvas e geadas do inclemente inverno dos pampas. Julieta caipira, viveu horas de fome, sede e pavor em cenário de cemitério, apaixonada por sua encarnação de Romeu, filho de um cabo da milícia estadual e de  uma presidiária que assassinou o primeiro marido.
Vicentina, cujo comportamento anterior não era dos melhores, é filha de um curandeiro, agregado de uma fazenda, homem que goza de prestígio como parteiro entre as gestantes daquele ermo. Acostumada ao trabalho do pai, não lhe foi difícil amarrar com um trapo o umbigo da criança, cortá-lo com uma faquinha que possuía e ficar à espera de João para que este executasse o prometido: deixar a criança na casa do Sr. João Pivetta, residente na Rua Moron, onde a pequenina foi encontrada sob um telheiro guardada por Tupi, o cão da casa, que choramingava ao lado do pequeno ser.
O encontro da menina, que posteriormente foi batizada com o sugestivo nome de Maria Aparecida, agitou a população de Cachoeira do Sul. A pequenina perdera muito sangue pelo orifício umbilical. Levada ao Hospital de Caridade, esteve muitos dias à morte. Salva pela dedicação dos médicos e das freiras, foi entregue pelo Juiz de Menores ao Sr. Jair Bittencourt, garçom de um estabelecimento comercial da cidade; sua esposa, D. Júlia, explicando os motivos que levaram o casal, cuja situação financeira não era das melhores e que já tem três filhos, a adotar a menina, disse muito comovente:
- Nossas crianças já estão crescidas. E, depois, ela não era tão doente, a pobrezinha...
O exílio voluntário dos jovens amantes teve início há 17 meses, quando o físico de Vicentina começou a mostrar o estado de gravidez em que se encontrava. Alegando que não queria permanecer no emprego, que não desejava ser vista na cidade, que os homens faziam gracejos a respeito de seu estado, a jovem foi para as barrancas do Rio Jacuí, onde, em companhia do namorado, passou a viver no mato. Quinze dias depois, João regressou à cidade e todas as noites voltava ao mato onde dormia numa furna com a companheira. Após nascer-lhe o filho, assustado com a revolta da opinião popular pela maneira como eles se livraram do inocente, aconselhou Vicentina a permanecer escondida. Disse-lhe que toda a cidade procurava a mãe desnaturada, que se ela reaparecesse poderiam suspeitar dela, já que fora vista, anteriormente, em estado de gravidez. E desta forma, o exílio voluntário de Vicentina prolongou-se e com a chegada do inverno o bambual onde viviam tornou-se extremamente úmido.
O rapaz, que procurava desesperadamente por emprego,  conseguiu com o zelador do cemitério a empreitada da pintura de alguns jazigos. Neste trabalho, descobriu o pequeno terraço, no alto do túmulo do finado João Carlos Costa. Aconselhou Vicentina a mudar-se para lá. Durante a noite dormiam juntos. De dia antes que o cemitério fosse aberto, desciam para o mato próximo, usando a cruz do jazigo vizinho como escada. Degradavam-se cada dia mais, não se importando, depois de terem vivido tanto tempo no mato e no alto do jazigo, em dormir, quando chovia ou esfriava muito, dentro de um túmulo próximo.
O pai de João, entretanto, sargento reformado da Brigada Militar, protestou contra as despesas que o filho fazia em sua conta de armazém. Cortou o crédito do rapaz, impossibilitando-o de continuar comprando alimentos para Vicentina. Quando arrumava uns trocados, João levava frutas e restos de comida para sua lúgubre morada. Durante a noite, alumiavam o ambiente com cotos de vela das sepulturas. Tinham como moringa um vaso de vidro também retirado de um túmulo. Eis, entretanto, qua a parca alimentação começa a abater as fôrças de Vicentina, já bastante debilitada pelo parto. O inverno caiu de rijo e ela não pôde mais se locomover. Passou a permanecer dia e noite sobre o teto da sepultura. Impossibilitada de descer para a capelinha onde são enterrados os sacerdotes falecidos da paróquia, Vicentina cobria o rosto com um trapo e assim enfrentava a chuva e o frio. Uma anciã, que da janela do hospital próximo via luz e movimento sobre o túmulo, narrou ao médico que algo de estranho ocorria no cemitério. Considerando a idade da paciente, o facultativo vaticinou:
__São coisas da velhice!
Quando Vicentina foi localizada, já fazia uma semana que não comia. Havia oito dias, João lhe levara meia dúzia de bananas e algumas laranjas. Nem subiu. Assobiou e jogou as frutas para a jovem. Regressou logo para os braços de uma gorda matrona, cujo quarto, cuja cama e cujo carinho eram muito mais atraentes que sua fria, tétrica e macabra última moradia.
Um dia antes de ser descoberta, Vicentina ouviu passos de uma freira que foi rezar no túmulo dos padres. Pediu que a tirassem dali e lhe dessem água, da mesma forma que no dia seguinte pediria para as jovens. A irmã afirma que ouviu o apêlo e procurou pela dona da voz. A jovem, entretanto, diz que sentiu que alguém, com passos apressados, rumava em direção à porta do cemitério.
Certa tarde - conta Vicentina - quando era maior sua fome e mais cruel sua sede, ouviu os passos que sabia serem do zelador. O homem parou num túmulo ao lado, onde depositou uma lata de água. Esperou que ele se afastasse um pouco e içou a lata com grande dificuldade. O zelador, hoje, confirma a história e diz que só agora encontrou explicação para o misteriosos desaparecimento de sua lata de carregra água. O único cuidado da infeliz era não ser vista por ninguém, temerosa da prisão onde ela e João pagariam o crime de ter enjeitado o filho recém-nascido. Protegida por um pequeno muro, que não chega a ter meio metro de altura,  permanecia deitada o dia inteiro. E assim ficou pelo espaço de sete meses até que, febril e quase inconsciente, ouvindo as vozes das môças, implorou por socorro.
Ao ser retirada de sua tétrica reclusão, Vicentina pesava apenas 28 quilos. Cabelos longos e emaranhados, coberta de andrajos, unhas enormes, era a figura perfeita da miséria. Uma freira afirmou que jamais encontrara, em toda a sua longa prática de hospital, uma criatura tão suja e tão fraca. E enquanto durava o suplício de Vicentina, não era menor o sofrimento de João. Isto ele confessa com a simplicidade dos ignorantes, na carta que, do fundo do cárcere, escreveu ao Delegado Ruy Weber Dias. “Eu passava dia e noite pensando: o que vou  fazer com aquela mulher?”
Fruto do meio em que foi criado, as boas intenções do rapaz (se é que podem ser assim classificadas) ressaltam no fato de ele ter colocado a filhinha na casa de uma família que sabia gostar de crianças. Podia ter jogado a pequerrucha no rio, podia ter assassinado a mulher e enterrar o cadáver no mato. Naõ narrou seu drama ao pai, porque este nem a pensão para dormir lhe pagava mais. Da autoridade, só conhecia o direito de castigar. Temia ser preso pela sedução da namorada e pelo abandono da filha. Habituado com a liberdade, pois freqüentava o “bas-fond” desde os 15 anos, reagiu à prisão quando um cabo da Fôrça Estadual foi buscá-lo em casa, após a descoberta de Vicentina. Tudo isso foi reconhecido pelo íntegro Juiz de Menores de Cachoeira do Sul, Dr. Arthur Prates Picoli, que determinou a libertação do rapaz.
Cena profundamente tocante, à margem do caso, foi proporcionada pelo encontro de Vicentina com a filhinha, atualmente com sete meses de idade. Conduzida pela reportagem de “O Cruzeiro” e pelo correspondente do “Diário de Notícias”, de Porto Alegre, Maria Aparecida entrou no quarto do hospital onde sua infeliz mãe se recupera. Vicentina tomou a criança nos braços, olhou-a ternamente e beijou-a com carinho. A seu lado, Dona Júlia, a mãe de criação, temerosa de perder a menina, era a mais emocionada.
- Nós gostamos muito dela - explicava arquejante para Vicentina. - Ela é muito boazinha. Dá muita despesa. Come duas latas de leite em pó por semana.
A pequena ajeitou-se no regaço materno e caiu em profundo sono.





 História verídica, acontecida no começo do século XX no Rio Grande do Sul-Brasil

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Mudança de vida





Havia uma mulher que vivia muito triste, achava que sua casa era feia e pequena , que a sua vida era muito sacrificada e que trabalhava demais.
A casa era simples, ficava  em uma chácara  grande, onde criavam uma vaca , um cavalo, alguns porcos, patos e galinhas.
Seu marido era um homem saudável e bem humorado, procurava de todas formas fazer com que ela e os três filhos fossem felizes,mas qual o que, a mulher
vivia reclamando com seu marido , maldizendo a vida que vivia e que ela tinha muito trabalho, choramingava dizendo que ninguém no mundo era mais infeliz que ela.
Levantava-se cedo, logo com o sol, quando o galo cantava e ia para a cozinha fazer o café.O marido já vinha logo em seguida, pegava a leiteira e ia tirar o leite da vaca.
Os filhos eram acordados por ela e logo ficavam prontos para ir à escola , pois a condução para levá-los até lá, chegava cedo.
Todos tomavam o café com leite, pão e queijo e comiam algumas frutas da época, fresquinhas, colhidas no quintal.
Depois que os filhos saiam para escola, ela ia alimentar os animais, e colocar a roupa suja de molho  na água e sabão.
Enquanto seu marido ia cuidar da horta, da plantação de milho e feijão ela se ocupava da arrumação da casa.
No tempo em que a comida cozinhava ela lavava a roupa e estendia.
Quando as crianças voltavam da escola, ela chamava o marido e juntos faziam as refeições, porém ,ela sempre vinha com muitas reclamações.
Dizia que faltava espaço na casa,que a sua vida era muito chata, que só saiam nos finais de semana e que achava que seu marido deveria tomar alguma providência para modificar a situação da família.
À tarde, os filhos e o marido se ocupavam dos serviços que não haviam sido feitos na parte da manhã, consertavam cercas e faziam arrumações no sitio.
Um dia, não aguentando mais as reclamações da esposa, o marido resolveu procurar um sábio que vivia nas proximidades e pediu-lhe um conselho.
_O que devo fazer para que minha esposa pare de reclamar da casa e do nosso modo de viver?Já que não posso fazer nada para mudar esta situação, gostaria que ela entendesse e parasse de reclamar.
O sábio aconselhou-o a ir colocando os animais para dentro de casa.Um dia o galo, depois as cabras, os porcos, os patos e as galinhas.
_Tá louco? Minha mulher vai ficar mais infeliz ainda!
O sábio disse-lhe que obedecesse e que se a mulher reclamasse,  dissesse que era uma simpatia  para que eles melhorassem de situação financeira , e que ele o  sábio, é que havia mandado.
O marido voltou para casa e fez exatamente o que o sábio mandara, no primeiro dia , o  galo, mesmo amarrado, andou quebrando umas louças e enchendo todo chão de estrume.No dia seguinte, as cabras que foram para dentro de casa além de sujarem tudo, deixavam um cheiro horrível e até comeram a toalha da mesa.
A mulher já estava quase louca, nem se lembrava mais de reclamar da vida, que agora  estava insuportável.Pior ficou quando o marido levou para dentro da casa os porcos e as galinhas.A mulher não queria desobedecer o sábio, achava que ia ficar rica, portanto aguentava tudo.
A família estava em pé de guerra, discutiam por tudo, viviam reclamando e ninguém queria mais entrar em casa.Tudo virou um inferno, já não havia mais harmonia.
O homem desesperado foi procurar o sábio e este lhe mandou começar tirar os animais , um por dia , assim como os havia colocado.
No primeiro dia com a saída dos porcos, todos já sentiram mais aliviados , no segundo dia quando saíram as galinhas, a casa ficou quase habitável.Cada animal que foi sendo retirado foi deixando a casa mais agradável e mais limpa.Assim com a retirada do último animal, a casa já parecia um palácio em comparação com que era uns dias antes.
A mulher começou  a arrumar e cuidar da casa, substituir por objetos novos  o que tinha sido quebrado e de repente a casa estava agradável e a vida muito melhor.
A partir daquele dia ela não mais reclamou do tamanho da casa e nem da vida que levava.O sábio veio e disse:
-Viu como a sua vida é boa?Poderia  continuar a ser do jeito que foi  até ha  alguns dias passados, mas veja como você é feliz agora !
Muitos de nós  somos como a mulher dessa história, vivemos querendo algo que já temos , só não sabemos valorizar!
É certo que temos sonhos, mas enquanto eles não se realizam não precisamos ficar de mal humor ou culpar o mundo.


"A vida é uma pedra de amolar: desgasta-nos ou afia-nos, conforme o metal de que somos feitos."George Bernard Shaw


Vamos combinar que viver uma vida reclamando dela, ninguém merece!


Wanda Wenceslau




*Esta história  foi adaptada, ouvi sempre contar, não sei quem é o autor*

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Beatles-While My Guitar Gently Weeps



Look at you all see the love there that's sleeping -Eu te olho inteira, vejo o amor que aí dorme
While my guitar gently weeps- Enquanto minha guitarra gentilmente chora
I look at the floor and I see it needs sweeping -Eu olho para o chão e vejo que precisa ser limpo
Still my guitar gently weeps- Enquanto minha guitarra gentilmente chora

I don't know why nobody told you -Eu não sei porque ninguém te disse
How to unfold you love -Como desdobrar seu amor
I don't know how someone controlled you -Eu não sei como alguém te controlou
They bought and sold you -Eles compraram e venderam você

I look at the world and I notice it's turning -Eu olho o mundo e eu noto que ele está girando
While my guitar gently weeps -Enquanto minha guitarra gentilmente chora
With every mistake we must surely be learning -Com todo erro nós certamente precisamos aprender
Still my guitar gently weeps- Ainda minha guitarra gentilmente chora

I don't know how you were diverted- Eu não sei como você foi distraída
You were perverted too -Você também foi corrompida
I don't know how you were inverted -Eu não sei como você foi invertida
No one alerted you- Ninguém te alertou
I look at you all see the love there that's sleeping- Eu te olho inteira, vejo o amor que aí dorme
While my guitar gently weeps- Enquanto minha guitarra gentilmente chora
I look at you all -Eu te olho inteira
Still my guitar gently weeps -Minha guitarra gentilmente ainda chora

(I look from the wings at the play you are staging -Eu vejo através dos ventos a peça que você está atuando
While my guitar gently weeps -Enquanto minha guitarra gentilmente chora
As I'm sitting here doing nothing but aging -Assim como estou sentado apenas envelhecendo
Still my guitar gently weeps) -Ainda minha guitarra gentilmente chora

domingo, 25 de outubro de 2009

Gente e paz


SIMBOLO DA PAZ

Tem gente que tem alma colorida. Olhar iluminado. Sorriso de bondade . Ao lado delas, a gente se sente num banco de jardim florido , sem ter pressa e sem querer que o tempo passe. Ao lado delas, sorrimos para todos e rimos de tudo, como se o mundo fosse mesmo só brincadeira. Só falamos de coisas boas e bonitas, desenrugamos a testa, deixando os problemas pra depois. O sorvete parece mais gostoso , o sol não queima e a neve não gela. O tempo é infinito.Tudo fica mais colorido e ar tem cheiro de rosas.


Muitas dessas pessoas passam nas nossas vidas por poucas horas, as vezes só a conhecemos quando já somos adultos, mas a sua importância é a mesma de um irmão, de um pai, de um amigo de infância.Perpetuam nossas lembranças para o resto da vida, vão sempre estar citadas num assunto ou noutro e vamos saber até o que diriam se nos pudessem responder.O perfume que usavam ,a cor que gostavam, a comida preferida, as palavras repetidas, tudo ficará nas nossas lembranças eternamente , fazendo a saudades agigantar-se e as lágrimas caírem. Sinto isso quando lembro dos meus tios, primos, avós, sogros e pessoas amigas que se foram para sempre.

Nas fotos mais coloridas do meu álbum de lembranças estarão pessoas que me deixaram muitos ensinamentos.Pessoas existem que nos dão lição de vida todos os dias.Umas encontramos as vezes , outras só conhecemos através do que escrevem, e como escrevem! Palavras que nos fazem refletir, sonhar, viajar,aprender,pesquisar,conhecer,enternecer,gargalhar,chorar,sorrir,e relembrar.

Pessoas com dom de música, conseguem enfeitar e colorir a nossa vida com notas musicais, notas tiradas do infinito da alma e que chegam até nós em sustenidos e bemóis.Enfeitam a melodia com letras que nos falam ao coração e a razão.

Mas aquele que passa por nós na rua ?De vez em quando, eu cumprimento, sim, pessoas desconhecidas. Ofereço sorrisos, olhares generosos, pequenas delicadezas. Há quem pareça se assustar e sequer retribua, o coração contraído demais para a gratuidade do gesto. Tem vez também em que oferto uma outra espécie de presente, que quem recebe jamais saberá que eu dei. Pode ser para alguém que eu sinta estar triste ou para alguém que eu perceba estar muito feliz, não importa. Não há lógica nem regra a ser seguida. Sem fazer ruído, a minha vida dirige para aquela pessoa a intenção de que a vida dela seja abençoada. Simples assim. Olhar alguém com amor, de perto ou de longe, é um jeito instantâneo de prece, eu acho. Realmente estamos todos em família na humanidade e que a paz que dizemos querer precisa começar no coração da gente. Na maneira atenta e generosa com que cuidamos de nós mesmos. Nos gestos delicados que estendemos aos outros. Grátis! Porque é assim que o ser humano começa dar um passo em direção à paz.

Wanda Wenceslau

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Vamos celebrar..........




Vamos celebrar a estupidez humana

A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja de assassinos
Covardes, estupradores e ladrões
Vamos celebrar a estupidez do povo
Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso Estado, que não é nação
Celebrar a juventude sem escola
As crianças mortas
Celebrar nossa desunião
Vamos celebrar Eros e Thanatos
Persephone e Hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade.
Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta de hospitais
Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos
Comemorar a água podre
E todos os impostos
Queimadas, mentiras e seqüestros
Nosso castelo de cartas marcadas
O trabalho escravo
Nosso pequeno universo
Toda hipocrisia e toda afetação
Todo roubo e toda a indiferença
Vamos celebrar epidemias:
É a festa da torcida campeã.
Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir
Não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar um coração
Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado de absurdos gloriosos
Tudo o que é gratuito e feio
Tudo que é normal
Vamos cantar juntos o Hino Nacional
(A lágrima é verdadeira)
Vamos celebrar nossa saudade
E comemorar a nossa solidão.
Vamos festejar a inveja
A intolerância e a incompreensão
Vamos celebrar a violência
E esquecer a nossa gente
Que trabalhou honestamente a vida inteira
E agora não tem mais direito a nada
Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta de bom senso
Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror
De tudo isso - com festa, velório e caixão
Está tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou esta canção.
Venha, meu coração está com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão.
Venha, o amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera -
Nosso futuro recomeça:
Venha, que o que vem é perfeição

 
Música :"PERFEIÇÃO" de Renato Russo-Composta em 1993... A letra parece cada dia mais atual....De lá pra cá nada mudou!A letra enfoca, de forma cortante e irônica, os aspectos de um país naufragado em corrupção política e descaso social.

domingo, 18 de outubro de 2009

INTERNET: O MITO AQUI E AGORA


INTERNET: O MITO AQUI E AGORA




Ineptire est juris gentium.




A inépcia é um direito de todos.
(Arthur Schopenhauer)


Em sua obra MITO E REALIDADE, Perspectiva, 2004, Mircea Eliade, afirma que a historiografia desempenha para o homem moderno o mesmo que a mitologia desempenhou para o primitivo. Nas palavras do autor:
“Durante milênios, o homem trabalhou ritualmente e pensou miticamente nas analogias entre o macrocosmo e o microcosmo. Era uma das possibilidades de se “abrir” para o Mundo e de participar da sacralidade do Cosmo. Desde a Renascença, quando se provou que o Universo era infinito, essa dimensão cósmica que o homem acrescentava ritualmente à sua existência nos é negada.

Seria normal que o homem moderno, caído sob o domínio do Tempo e obsedado por sua própria historicidade, procurasse “abrir-se” para o Mundo, adquirindo uma nova dimensão das profundezas temporais. Inconscientemente, ele se defende da pressão da História contemporânea através de uma anamnesis historiográfrica...”

O poder de sedução da Internet parece estar ligado às possibilidades ilimitadas que ela cria para o cidadão comum interferir no mundo sem sair de sua própria casa. A partir de seu computador pessoal, o internauta pode fundar um partido, iniciar uma campanha contra ou a favor de uma decisão política ou judicial, manter um blog, comentar uma matéria jornalística, reclamar diretamente aos Órgãos Públicos municipais, estaduais e federais em razão de suas ações ou omissões, apropriar-se de informações privilegiadas ou divulga-las para prejudicar um desafeto ou beneficiar uma causa que defende. Os mais ousados estão em condições de elaborar Projetos de Lei e envia-los à Assembléia Legislativa ou à Câmara dos Deputados e iniciar campanhas de mensagens para os Deputados apoiando suas propostas.

Ninguém duvida de que a Internet já mudou completamente as relações entre os cidadãos, entre estes e o Estado e principalmente entre os ocupantes de cargos públicos eletivos e os cidadãos que dizem representar.
Apesar de seus benefícios, a Internet tem causado desconforto numa categoria de pessoas: os especialistas. Desde o século XIX o Ocidente atribuiu um valor excessivo aos especialistas. Faculdades foram criadas para formá-los, leis foram aprovadas para regulamentar suas profissões e, principalmente, proibir o exercício das mesmas por leigos. OABs, Conselhos Federais e toda uma gama de instituições públicas ou quase públicas foram criadas para defender e proteger os especialistas.

Dentre todos os especialistas os que mais sofreram o impacto da Internet foram os jornalistas. Não são poucas as vozes que vociferam contra a proliferação de blogs, denunciam o mal jornalismo praticado na blogosfera ou lamentam o tempo em que os jornais eram vendidos em bancas e os jornalistas tinham o privilégio de definir o que era e o que não era notícia, bem como a ênfase a dar à mesma.

Na Internet todos somos leitores e jornalistas, mas alguns jornalistas querem que continuemos apenas leitores. Isto não é só infantil, é anacrônico. Assim como a historiografia desempenhou a partir da Renascença o mesmo papel que a mitologia na antiguidade, a Internet tem um papel mítico a desempenhar.

Através da Internet todas as habilidades podem ser exercitadas e, eventualmente, reconhecidas. Mesmo que não sejam desde logo reconhecidas, à medida que forem exercitadas as habilidades individuais para produzir textos (escritos, falados, iconográficos, fotográficos, televisivos e cinematográficos) e divulgá-los na Internet ou usá-los com finalidade política ou lúdica colaborará para o desenvolvimento da sociedade. Na Internet os acertos e os erros podem ser compartilhados, de maneira que tudo pode acabar virando estímulo ou reforço. Os artistas e os especialistas formados sob o signo da comunicação “on line” tendem a ser mais ágeis e adaptáveis que seus colegas do passado.

Qualquer um que tenha o mínimo conhecimento de mitologia não pode desconsiderar o papel relevante que a Internet já desempenha ou virá a desempenhar no desenvolvimento da humanidade. Por intermédio de um provedor gratuito e ao custo de uma ligação discada, o internauta está em condições de participar de movimentos virtuais globais ou transforma-los em realidades locais.

A criação de identidades e de convergência de propósitos através da Internet é uma realidade. Isto transforma a rede de computadores num centro de re-ligação entre indivíduo e sua comunidade de eleição. A re-ligação é uma experiência mística e muitas vezes bastante agradável. Mesmo que seja terrificante, auxilia no processo de amadurecimento individual. Nesse sentido, pode-se dizer que a Internet é mais do que um mercado, um fórum e uma biblioteca. Ela é mítica e mitilogizante.

O filósofo Arthur Schopenhauer tinha uma verdadeira aversão por especialistas. Considerava-os mercadores, pois “...sua ciência é um meio e não um fim.” (A arte de escrever, L&PM, 2005). Com alguma razão considerava que os diletantes estavam em condições de produzir algo digno de nota, porque “... só se dedicará a um assunto com toda seriedade alguém que esteja envolvido de modo imediato e que se ocupe dele com amor, com amore.” (idem).

Durante séculos somente as pessoas ricas ou protegidas das muito ricas puderam se dedicar a um assunto por diletantismo. Com a Internet o diletantismo está ao acesso de todos. Nesse sentido, a rede mundial é realmente revolucionária. Quanto mais cabeças pensarem e divulgarem idéias, maiores serão as probabilidades de que os verdadeiros gênios tenham sua genialidade aproveitada em benefício da humanidade.

Desde a antiguidade clássica milhões de pessoas criativas definharam amarguradas porque não puderam submeter suas idéias ao julgamento público. Agora que o público está ao acesso de todos alguns privilegiados acostumados a ser tratados como únicos produtores culturais se mostram incomodados. A blogosfera será impiedosa com seus críticos, ignorando-a.

Para compreender melhor este texto, retorne ao início. Assim, caso seja um especialista ou um leitor acostumado a dar crédito apenas aos especialistas, você poderá ignorar as afirmações de um inepto diletante. Caso contrário poderá considerar este texto uma modesta contribuição ao diletantismo virtual.




Fábio de Oliveira Ribeiro

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Amor à primeira vista.



Foi assim, um amor à primeira vista! Há quem não acredite nisso, mas existe ou existiu, pelo  menos nesta história!
Ela era Helena, uma bela moça que nasceu e sempre morou na cidade de São Paulo. Dona de um corpo muito bem feito, parecia que havia sido esculpido, era a perfeição, estatura média, cabelos castanhos claro, quase loiros, longos e lisos.Os olhos num tom verde escuro tal qual duas esmeraldas, boca bem definida com lábios carnudos e provocadores que se abriam num sorriso enigmático mostrando os dentes brancos e perfeitos.
Ele, Paulo, um rapaz simples que havia acabado de chegar do interior do Paraná. Logo despertou o interesse das garotas com o seu corpo musculoso, que fora moldado no trabalho árduo no campo!Ele tinha os cabelos pretos e encaracolados, pele morena curtida de sol, lábios bem definidos e um sorriso amável e cheio de ternura que combinava com olhos escuros e misteriosos.
Depois do primeiro momento que se conheceram não havia como separá-los. Estavam sempre de mãos dadas e olhos nos olhos. Afastaram-se dos amigos e tudo que interferisse naquele romance e começaram a viver um para o outro. Parece que tinham um único pensamento na cabeça, ela pensando nele, ele pensando nela. Era tão visível a necessidade de um estar com o outro, tanto, que os pais trataram de apressar o casamento antes que colocassem a carroça na frente dos burros, como dizia mãe de Helena.
Era inicio dos anos 40 do século XX, o mundo estava no começo da segunda grande guerra, no Brasil já se vivia intensamente esse clima após o bombardeio sobre as embarcações brasileiras no Oceano Atlântico.
Para o casal nada importava desde que um estivesse nos braços do outro. Helena era modista e costurava para as senhoras que viviam no bairro, Paulo só conhecia o serviço de agricultor e como não tinha profissão, começou a prestar pequenos serviços nas serralherias e marcenarias que existiam nas redondezas , talvez à procura de firmar-se na profissão
Logo no primeiro ano de casamento já tiveram um filho, mas o namoro do casal não foi abalado pela presença de outra pessoa, ao contrário , parecia que estavam tão enamorados quanto a primeira vez que se viram.
Os anos foram passando e a cada ano um novo filho. Já estavam no sexto ano de casamento e no quinto filho, quando numa noite fria de julho, uma garoa incessante que caia sobre a cidade, Paulo saiu de casa para comprar cigarros e fósforos.
Passou uma hora, passaram-se duas, três e nada dele voltar. Helena já apavorada e pensando no pior, avisou a família e começaram as buscas.
No bar onde ele havia ido, disseram que ele estivera lá, mas que após comprar os cigarros e os fósforos saiu normalmente, não o tinham mais visto por lá naquela noite. As buscas se estenderam a outros bares e localidades, casas de amigos, hospitais, delegacias, necrotério e nada!
As famílias do casal ajudavam no que podiam, tanto nas buscas, como no amparo a Helena e aos filhos.Passaram-se dias que formaram meses e meses que formaram anos.
Helena criava os filhos com o dinheiro que recebia das suas confecções e das aulas noturnas de corte e costura.Aos sábados à tarde também ministrava aulas de catecismo para as crianças que iriam fazer a primeira comunhão na comunidade onde morava.Os filhos foram crescendo e ela sempre fiel a espera do marido ou de uma noticia deste.Não se vestia de luto, mas andava sobriamente vestida e tinha um comportamento exemplar como mulher casada.Já não gostava mais que tocasse no assunto do desaparecimento do marido , pois com o passar dos anos , muitos pensamentos devem ter-lhe passado pela cabeça e o que se podia ver agora era uma mulher triste e magoada.
As pessoas comentavam que ele poderia ter sido preso como espião de guerra, outros diziam que o tinham encontrado na rua na companhia de outra mulher, alguns levantavam a hipótese dele ter sido morto e enterrado por um inimigo, mas quem?Aí , inventavam histórias do envolvimento dele com alguma mulher casada e que o marido os havia surpreendido e os matado .Lendas foram criadas em volta do desaparecimento do marido de Helena, mas a verdade é que ninguém sabia de fato o que lhe acontecera.
Passaram-se vinte e oito anos ,o Brasil vivia agora no regime de ditadura militar, era o ano de 1975 , os filhos de Helena haviam se casado e ela vivia sozinha na casa que fora morar com marido antes do desaparecimento dele.
Naquele mês de abril, os dias amanheciam frios e depois iam esquentando, uma típica manhã de outono.Helena tinha um vestido para entregar, e preparava-se para sair , quando ouviu baterem à porta.Abriu e deparou-se com um senhor meio calvo e de bigode que lhe sorriu sem dizer nada.Ela deu um passo para trás e depois de estudar a fisionomia da pessoa , pos a mão no peito e falou pausadamente:
_Paulo!
Sim, era seu marido, em carne e osso que voltava saindo de dentro dos seus mais lindos sonhos e terríveis pesadelos. Quanto ela havia esperado e sonhado com aquele momento!
Ele ficou parado do lado de fora , perto da porta, esperando uma reação dela que após recompor-se do susto mandou que ele entrasse.Não o abraçou e nem tocou nele, pois agora ele era um perfeito estranho, uma pessoa que ela nunca tinha visto, tanto na aparência como no comportamento.
Já dentro de casa ele olhou em volta como querendo reconhecer móveis e objetos , sentou-se e começou a chorar.
Neste momento Helena também deixou cair as lágrimas que estavam contidas desde que abrira a porta ,lágrimas de susto e emoção.Ele tentou abraçá-la ,perguntou dos filhos, mas ela permaneceu impassível,recuou e escondeu o rosto com as mãos.Passaram-se minutos e tudo o que faziam era chorar.Helena pegou um copo de água para si e outro para Paulo, beberam e olharam-se fixamente.Ela perguntou:
_O que aconteceu?
Pergunta que ficara martelando em seu cérebro durante vinte e oito anos !
Ele levou um tempo para responder , parecia que estava buscando uma maneira de começar o assunto.Baixou a cabeça e sem olhar para Helena foi falando:
_Naquela noite quando sai de casa pensei dar uma volta e fumar um cigarro e fui andando. Andei, andei, andei quase a noite inteira, queria distanciar-me daqui, desta vida, destes problemas, da responsabilidade de criar todos os nossos filhos, da falta de emprego, falta de alimentos em época de guerra, de ter que vê-la trabalhando , é só trabalhando e eu não podendo fazer nada para modificar a situação.Quando estava muito longe daqui, peguei uma carona com um caminhoneiro e fui para outra cidade, esperava arrumar melhor emprego e começar uma vida nova e voltar para buscá-los, mas tudo o que eu arrumava era mais miséria e abandono, fui vivendo pelas ruas como mendigo até que um senhor, dono de uma marcenaria, me empregou e me deixou morar num quartinho nos fundos da oficina.O que ganhava mal dava para minha sobrevivência, mas assim fui levando a vida e quando vi que haviam se passado alguns anos, não tive coragem de voltar.
Helena ouvia com olhos espantados e o coração aos pulos , foi sentindo um misto de raiva e pena que a prostrava e deixava sem ação.Todo seu ser sofria, e sofria mais do que no dia em que o marido sumira inesperadamente.Paulo continuou falando sobre tudo o que passara e como vivera nessas anos todo de ausência.
Depois de uma pausa, ele levantou-se e continuou:
Dizendo que sem coragem para voltar, ele começou a buscar a felicidade, àquela felicidade que ambos tinham quando se conheceram, que ele buscava as emoções de um novo amor , de uma nova paixão e que alucinadamente pensava achar em cada relacionamento seu com outras mulheres, porém, envelhecera sem nunca mais sentir por ninguém o que sentira por ela e nunca mais viveu dias tão bonitos e de delicada magia como no tempo em que se apaixonaram e foram namorados.Que por isso ele agora estava lá só para pedir  perdão pelo sofrimento que causou a ela e aos filhos e também para dizer que ela era o que de melhor havia acontecido na vida dele, e que não soube valorizá-la, que se ela mandasse, ele iria embora agora mesmo, sem nem sequer ver os filhos e netos, sumiria para sempre.
Helena pensou, e sua criação cristã falou mais alto, pediu a ele que voltasse no próximo domingo, pois ela iria conversar com os filhos.
Domingo todos foram almoçar em casa da mãe e preparados para conhecer o pai e ouvir suas explicações. Paulo chegou e abraçou a todos, não com saudades, mas como um estranho que acaba de conhecer novas pessoas. Antes que começassem a conversa Helena pediu para falar e disse:
_Todos aqui sentiram a falta de um pai, o pai de vocês estava ausente, eu fui pai e mãe, me digam agora se reconhecem neste homem o pai de vocês.
_Não
Foram unânimes!
Ela virou-se para o marido e disse:
_Veja que família linda você perdeu, a oportunidade de criar e ver crescer, estar presente no dia a dia deles, amá-los e protegê-los.Não guardo rancor porque quem mais perdeu nesta história foi você.Se teus filhos quiserem continuar a vê-lo, eles que o recebam em suas casas, porque aqui não te quero mais, volte para seus sonhos, corra atrás de momentos de paixão , eu já tenho a quem amar; minha família!
Assim dizendo pediu a todos que se servissem do almoço, pois aquela seria a primeira e última refeição em que todos estariam juntos.

Wanda Wenceslau

OBS.Esta é uma história verídica, só troquei o nome dos personagens!

domingo, 11 de outubro de 2009

O milagre


Dia 12 de outubro se comemora o dia de Nossa Senhora Aparecida padroeira do Brasil, portanto é feriado nacional.

Fiquei pensando em um milagre para contar aqui no blog , um milagre acontecido comigo ou com alguma pessoa conhecida .
Supomos sempre que milagre tem que ser uma coisa grandiosa, ser salva de uma doença incurável, voltar a andar depois de um acidente de carro,aparecer alguém para salvar-nos se estamos no afogando no mar, e outras coisas de super homem.
Não imaginamos quantos pequenos e grandes milagres já recebemos na vida.O fato de não termos uma doença incurável, já é o milagre.Não sofrermos nenhum acidente de carro que nos deixe inválidos , já é o milagre , não estarmos nos afogando no mar, já é um milagre também!A toda hora estamos recebendo graças divinas, pois o ser humano é frágil e constantemente exposto a tantos perigos da natureza e dos inventos da civilização.Quando acordamos pela manhã , estamos recebendo o milagre de não termos morrido durante a noite.Poucas vezes nos damos conta disso.Sempre estamos com preocupações minúsculas que se agigantam em nossas mentes.
Eu me lembro um dia ,quando eu era criança, na escola , precisando de uma nota alta em matemática, justo em matemática, que era uma matéria que eu gostava, mas eu tinha sido displicente e não estudei o suficiente..Aquela semana não fiz outra coisa que não estudar, peguei vários livros de exercícios e tentei resolver todos, e os que não consegui resolver fui buscar ajuda de professores e amigos.Minha meta era a nota máxima, coisa quase impossível, pois as vezes uma distração já nos tira meio ponto.Fiz uma promessa a Nossa Senhora Aparecida, que me fizesse conseguir tirar uma nota dez, senão eu teria que repetir o ano na escola.
No dia da prova fui confiante que não erraria nada , pois estaria protegida pela santa e isso me deu segurança.Tirei o dez, sai do sufoco, e nem me lembrava o que havia prometido a santa, mas a mim mesma eu prometi nunca mais deixar aquela situação acontecer.Agradeci a Nossa Senhora Aparecida e realmente acreditei ter sido ajudada por ela, tanto que até hoje não esqueci o milagre.Agora, com mais idade e conhecendo melhor a vida, acho que fui egoísta demais, porque a santa deveria ter coisas mais importantes para fazer do que ajudar uma garota a passar de ano,acho que o milagre mesmo eu já tinha recebido, pois tinha saúde e inteligência para correr atrás do prejuízo.
Nestes feriados muitas pessoas irão até a cidade de Aparecida do Norte, na basílica, agradecer por milagres recebidos.Pessoas que conseguiram casas próprias, que conseguiram curar-se de males do corpo e um sem número de pedidos que seria impossível citar aqui.Eu diria que o maior milagre já está no fato deles poderem ir a basílica.
Os milagres estão acontecendo em nossas vidas todos os dias, você não vai ouvir sinos tocarem para anunciar o milagre, mas seu coração vai se sentir feliz e agradecido por tudo que te acontece de bom, e você vai reconhecer que um milagre acabou de acontecer.Você está lendo! Agradeça o milagre de poder enxergar!Quantas pessoas neste momento estão pedindo esse milagre? Você já o conseguiu!

Wanda Wemceslau

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Com o tempo.




Tenho aprendido com o tempo que a felicidade vibra na frequência das coisas mais simples. Que o que amacia a vida, acende o riso, convida a alma pra brincar, são essas imensas coisas pequeninas bordadas com fios de luz no tecido áspero do cotidiano. Como o toque bom do sol quando pousa na pele. A solidão que é encontro. O café da manhã com pão quentinho e sonho compartilhado. A lua quando o olhar é grande. A doçura contente de um cafuné sem pressa. O trabalho que nos erotiza. Os instantes em que repousamos os olhos em olhos amados. O poema que parece que fomos nós que escrevemos. A força da areia molhada sob os pés descalços. O sono relaxado que põe tudo pra dormir. A presença da intimidade legítima. A música que nos faz subir de oitava. A delicadeza desenhada de improviso. O banho bom que reinventa o corpo. O cheiro de terra. O cheiro de chuva. O cheiro do tempero do feijão da infância. O cheiro de quem se gosta. O acorde daquela risada que acorda tudo na gente. Essas coisas. Outras coisas. Todas, simples assim.Tenho aprendido com o tempo que a mediocridade é um pântano habitado por medos famintos, ávidos por devorar o brilho dos olhos e a singularidade da alma. Que grande parte daquilo em que juramos acreditar pode ser somente crença alheia que a gente não passou a limpo. Que pode haver algum conforto no acordo tácito da hipocrisia, mas ele não faz a vida cantar. Que se não tivermos um olhar atento e generoso para os nossos sentimentos, podemos passar uma jornada inteira sem entrar em contato com o que realmente nos importa. Que aquilo que, de fato, nos importa, pode não importar a mais ninguém e isso não tem importância alguma. Que enquanto não nos conhecermos pelo menos um pouquinho, rabiscaremos cadernos e cadernos sem escrever coisa alguma que tenha significado para nós.Tenho aprendido com o tempo que quando julgamos falamos mais de nós do que do outro. Que a maledicência acontece quando o coração está com mau hálito. Que o respeito é virtude das almas elegantes. Que a empatia nasce do contato íntimo com as nuances da nossa própria humanidade. Que entre o que o outro diz e o que ouvimos existem pontes ou abismos, construídos ou cavados pela história que é dele e pela história que é nossa. Que o egoísmo fala quando o medo abafa a voz do amor. Que a carência se revela quando a autoestima está machucada. Que a culpa é um veneno corrosivo que geralmente as pessoas não gostam de ingerir sozinhas. Que a sala de aula é a experiência particular e intransferível de cada um.Tenho aprendido com o tempo coisas que somente com o tempo a gente começa a aprender. Que o encontro amoroso, para ser saudável, não deve implicar subtração: deve ser soma. Que há que se ter metas claras, mas também a sabedoria de não se transformar a vida numa sala de espera. Que a espontaneidade e a admiração são os adubos naturais que fazem as relações florescerem. Que olhar para o nosso medo, conversar com ele, enchê-lo de cuidado amoroso quando ele nos incomoda mais, levá-lo para passear e pegar sol, é um caminho bacana para evitar que ele nos contraia a alma.Tenho aprendido que se nos olharmos mais nos olhos uns dos outros do que temos feito, talvez possamos nos compreender melhor, sem precisar de muitas palavras. Que uma coisa vale para todo mundo: apesar do que os gestos às vezes possam aparentar dizer, cada pessoa, com mais ou menos embaraço, carrega consigo um profundo anseio de amor. E, possivelmente, andará em círculo, cruzará desertos, experimentará fomes, elegerá algozes, posará de vítima para várias fotos, pulará de uma ilusão a outra, brincará de esconde-esconde com a vida, até descobrir onde o tempo todo ele está.

Ana Jácomo