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segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Histórias de bonde




Era só a tia Tomaza chegar,todas as crianças, após cumprimenta-la e dar as boas vindas , já começávamos a cercá-la para que ela nos contasse uma história,na verdade uma história mesmo, sempre a mesma!
Todos nós ficávamos ansiosos, olhando para àquela mulher de cabelos brancos, presos por um birote , com alguns fios que teimavam a em soltar-se e que ela constantemente empurrava para o lugar onde deveriam ficar.Seus olhos astutos e curiosos, percorriam nossas faces que mal podiam conter a ansiedade para ouvir seu relato.
Tia Tomaza era cunhada de minha avó, mãe do meu pai, e tinha um leve sotaque espanhol, fora criada numa colônia espanhola das muitas que existiam no Brasil pós imigração , dos anos 20 do século XX.
Ela dava voltas às conversas , esperava que minha mãe lhe servisse um café com bolo e começava:
_Quando eu vim para São Paulo, em 1940,nunca tinha visto um bonde, nem sequer muitos automóveis eu tinha visto lá em minha cidade, Franca, no interior de São Paulo, pois somente alguns fazendeiros possuiam automóvel.Eu nunca tinha entrado num bonde, até que inesperadamente me aconteceu um triste episódio.
Tia Tomaza, parava de falar propositalmente, para verificar a nossa ansiedade em conhecer mais detalhes da história tantas vezes repetida.Seus olhos castanhos criavam um brilho, denunciando que estava lembrando-se de um novo detalhe , inédito até então para nós.Erguia as costas, acomodava-se na cadeira e continuava:
_Eu estava morando já há alguns dias na cidade de São Paulo, quando meu marido adoeceu e ficamos; eu e mais cinco filhos , praticamente sem nenhum dinheiro para sobreviver enquanto meu marido estivesse internado no hospital.Eu precisava urgentemente arranjar um trabalho para ganhar dinheiro.
Minhas vizinhas lavavam roupa para as grã-finas que moravam no centro da cidade , inclusive , já em prédios de apartamentos, que ainda eram novidade naqueles dias.
O trabalho consistia em buscar a roupa suja nas casas das freguesas, lavar, engomar, passar e devolver assim que o serviço estivesse feito.A cada peça lavada e passada era pago um valor diferente, dependendo do tecido ou do modelo. Um vestido com pregas era mais caro que os outros, um paletó era mais caro do que uma blusa, as camisas eram cobradas por dúzia e os lençóis e fronhas eram cobrados conforme o tecido.Dava para ganhar um bom dinheiro se eu colocasse as minhas filhas mais velhas para ajudar-me e assim fiz.
No primeiro dia a vizinha me levou à casa da amiga de sua patroa e....lá vim eu com uma enorme trouxa de roupas para lavar!
Fomos e voltamos de bonde, era a primeira vez que eu andava de bonde, e devido ao horário ele estava quase vazio, viemos sentadas e ainda colocamos as trouxas no lugares vagos.
Lavei , quarei e deixei a roupa cheirosa e limpinha, muito bem passada e engomada. Minhas filhas recolhiam a roupa dos varais e ajudavam na separação das peças coloridas na hora de lavar.
Quando fui entregar a roupa lavada, engomada e passada, também fui de bonde ,que coincidentemente ,estava também com poucos passageiros.
A senhora recebeu a roupa e achou o serviço rápido e muito bem feito , me pagou e me deu outra trouxa de roupa suja para lavar.
Dessa vez não tive sorte, fiquei esperando o bonde , e estes passavam quase lotados.Percebi que só os homens ficavam em pé no bonde, as mulheres estavam todas sentadas.Fiquei esperando que passasse um bonde com lugar vago, pois imaginei que era proibido as mulheres viajarem em pé, nem sequer passou pela minha cabeça que os homens estavam em pé porque davam os seus lugares para as senhoras.
Cansada e com aquela pesada trouxa de roupas resolvi entrar no próximo bonde e assim fiz, entrei e sentei no colo de uma senhora , já que sentar no colo de um homem não ficaria bem e nem eu teria coragem ,e eu imaginava, viajar em pé , mulher não poderia.
Fiquei ali sentada no colo da mulher e com a trouxa de roupas no colo.

Quando a tia Tomaza chegava nessa parte da história, todos que ouviam, rompiam em gargalhadas, pois imaginavam a tia , com a trouxa ao colo , sentada no colo da mulher!
Ela justificava-se:
_Eu não sabia que mulher poderia viajar em pé ou que algum cavalheiro me cederia o lugar.
Alguém que ouvia a história logo perguntou:
_ E a mulher , tia?A que a senhora sentou no colo dela? o que ela fez?
Tia Tomaza ergueu a sobrancelha e já com um sorriso maroto respondeu:
_Ela ficou quietinha! Ela não disse nada!Acho que era a primeira vez que ela viajava de bonde!
Riamos à solta e eu ainda curiosa indagava:
_A senhora veio o caminho todo sentada no colo dela?
Não! Claro que não!Logo uns senhores se levantaram para ceder-me o lugar, respondia a tia toda satisfeita.
Assim continuavam as perguntas e as gracinhas à respeito do fato acontecido, até que a tia resolvia ir embora , com a certeza que outro dia voltaria e lhe pediríamos para nos contar a história do bonde novamente.

Wanda Wenceslau

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

A Estrela


A Estrela
Ricardo Gondim


“Não, Jairson, você não vai sair de casa hoje”, avisou-lhe seu pai. O menino queria comprar apenas um doce na mercearia poeirenta da esquina. Mas a ordem vinha com autoridade. “Hoje é sábado, você precisava descansar”, insistiu o velho. O treino da sexta-feira fora extenuante e no domingo, junto com o nascer do sol, aconteceria a grande oportunidade de reverter a pobreza centenária da família. Jairson se apresentaria para a mais seleta platéia. Subiria pela malhas de uma peneira apertada e, sem sequer precisar ser do juvenil, chegaria ao elenco de um time internacional. “Jogador bom, precisa se concentrar”, insistiu o velho.

Minutos depois dessa advertência, seus amigos o chamaram para um joguinho na pracinha a cem metros de sua casa; exatamente no areal onde brilhara e tornara-se uma promessa de virar estrela - sina que ganhara com o nome. Seu pai o registrara no cartório com um nome composto por dois dos maiores astros do tricampeonato mundial, Jairzinho e Gerson.

Era-lhe inato driblar e arrancar com a bola grudada nos pés. Parecia mantê-la presa com um elástico e, por mais que saçaricasse, ela não lhe fugia dos pés. Jairson jogava numa pracinha abandonada e triste com um coreto onde não nenhuma banda tocava há décadas e que se transformara num mictório a céu aberto; da maior parte dos bancos de cimento, restavam apenas os ferros retorcidos e seus postes não iluminavam. Os traficantes quebraram as lâmpadas; preferiam vender morte protegidos pelo manto escuro da noite. A única beleza da pracinha vinha de enormes mangueiras que se espalhavam em grande número.

Ali, entre mangueiras frondosas, descalço e sem camisa, começou encantando outros moleques da vizinhança. Bailava como um dançarino espanhol todas as vezes que dominava a “pelota”. Nunca vestira camisa de time algum e jamais colocara uma chuteira nos pés; chutava uma bola de borracha que saltitava como um cavalo xucro. Porém, por mais rebelde e indomável, a redonda obedecia aos comandos de Jairson, que a domava até por telepatia.

“Esse menino tem futuro”, alardeava Antônio, morador da casa 23. Na frente da pracinha havia uma vila de casas bem pobres que um rico alugava para os operários das fábricas suburbanas. Antônio gostava de sentar numa cadeira de balanço, abria uma cerveja gelada e assistia as peladas sentindo-se numa arquibancada particular, espectador privilegiado.

Gostava de assistir aos jogos desde o começo quando os meninos estendiam seus dedos disputando no par ou impar os times da pelada. Em cada jogo, o placar se mantinha elástico com pelo menos quinze gols. O artilheiro, sempre o mesmo: Jairson que esbanjava talento e brilhava com um fulgor típico dos gênios. Por mais que se escalassem novos times, o do Jairson sempre ganhava.

Ele era um menino de braços magros, pernas finas e aspecto de criança pobre. Falava muito pouco, sua pele continha um marrom triste, cor de fumo de charuto. Sem a bola não impressionaria ninguém.

Antônio insistia pela vila que a família desperdiçava um diamante de vários quilates. “Vocês não podem deixar o tempo passar. Abordava o pai do menino com indignação: "Por que você não manda o Jairson treinar numa escolinha?”. “Esse menino só precisa dos fundamentos”, pontificava como um especialista do futebol.

Acabou convencendo o pai a levar Jairson para visitar o “Gentilândia Sporting Club”, único time da redondeza. Seria só uma conversinha com o técnico do infantil. Na segunda-feira seguinte, chegaram no treino do fim da tarde. O clube pobre, não cuidava da grama e mal conseguia comprar bolas suficientes para o número de meninos. O técnico aparentava mais de cinqüenta anos. Com sua barriga enorme, embora magro, tentava comportar-se como os dirigentes de clubes que dão entrevistas em programas esportivos na televisão. Porém, seu aspecto não era de alguém acostumado a conviver com atletas, ele pertencia a mesa dos que gostam de cerveja. Antônio, Jairson e o pai esperaram que o treino terminasse. Antônio teve coragem de falar:

“Estamos aqui porque o filho desse senhor tem se revelado um fenômeno nas peladas do bairro. Chama-se Jairson e se for treinado, vai ser a maior revelação do futebol brasileiro”. Por algum motivo, os elogios soaram exagerados demais e o pai de Jairson curvou a cabeça como se contemplasse as formigas passeando. Meio envergonhado, deixou o vizinho continuar propagandeando.

“Qual a idade?”, perguntou o técnico, virando-se para o pai. “Treze”, respondeu ainda cabisbaixo. “Ele tem chuteira?”. “Não”, replicou timidamente. “Façam o seguinte: tragam o menino aqui na quarta-feira, quero vê-lo jogar. Farei alguns testes. Conheço o potencial de um garoto logo que toca na bola”, finalizou. Gabava-se.

No trajeto para casa, o pai, pobre operário da tecelagem, suava nas palmas das mãos, pois já sonhava. Aquela visita poderia se converter no primeiro passo para uma vida livre de dívidas. Se o menino era tudo o que o Antônio alardeava, ficariam ricos. Acompanhava o noticiário esportivo e sabia que Agostinho, um novo talento há pouco revelado, o artilheiro do Campeonato Brasileiro, fora vendido para o futebol europeu por alguns milhões de euros. Fechou os olhos. Via o caminhão de mudanças estacionado na frente da casa. Imaginava a felicidade de poder sair da vila, de mudança para Madri ou Berlim, quem sabe Paris. Levariam somente a escrivaninha do quarto. “Afinal de contas, herdei da vovó”, pensou. Se sua mulher insistisse muito, incluiria também a máquina de costura. “Não quero que perca o hábito de fazer minhas camisas”, continuou falando consigo mesmo. Ainda prometeu, em seus sonhos acordados, manter-se humilde. Bateu levemente na perna do vizinho, enquanto o ônibus rumava para casa e jurou: “Nunca esquecerei de você, meu amigo”.

No dia seguinte, o pai do craque abriu o jornal e constatou, que seus sonhos não eram impossíveis; um dia eles se concretizariam. Agostinho, até recentemente morador de favela, sorria na primeira página, abraçado com uma bela atriz. Atrás dele o escudo da Fifa mostrava que ele participava de uma solenidade na sede da entidade. Com tanta expectativa, o velho não se continha de alegria. Quantas vezes imaginou visitar a Alemanha, passear no lugar onde um dia ficava o muro de Berlim; tomar cerveja em canecões gigantescos. Seu coração acelerou ao se achar numa gôndola em Veneza. Sonhou e sonhou.

Na quarta-feira, levou Jairson para o Gentilândia; dia da primeira avaliação. O técnico, a principio, não prestou atenção a eles. Quem sabe não os reconheceu; talvez porque Antônio não acompanhou. De soslaio contemplou menino e pai e deixou que esperassem uma eternidade. Parecia já ter esquecido que prometera testar o futebol do guri. Além de tudo, mostrava-se agitado e intimidava com seus gritos e palavrões da lateral do campo; dava ordens sobre os cones balizadores pedia concentração. Mandou que a meninada desse passes com apenas um toque na bola. Jairson, ávido, aguardava a ordem de entrar.

O técnico olhou para os pés do moleque e perguntou: “Trouxe chuteira”? A cinco dias do pagamento, não havia dinheiro para comprar nada e o pai de Jairson pediu desculpas: “Ainda não consegui comprar”.

Jairson tomou um susto quando viu uma camiseta voando em sua direção. Ela tinha um número oito descosturado que pendia até a metade, sobrando apenas um zero. O técnico soou relutante quando jogou o uniforme puído. O imperativo veio curto e simples: “Treine passes só com um chute na bola".

No momento em que Jairson correu pela primeira vez, já revelou sua exuberância. Movia-se com uma ginga diferente, meneava os quadris, bamboleava as pernas, parecia um ilusionista pronto a fazer a bola desaparecer entre os pés. Porém, seus pés incharam. Desacostumado a chutar o couro, parecia estar com chuteiras vermelhas. Mesmo assim, seu desempenho foi descomunal para um menino daquela idade.

Não possuía um chute com grande potência, mas já sabia dar efeitos com a ponta dos dedos. As bolas rodopiavam como planetas, davam mais de uma curva no ar, desafiavam toda lei da física. Em alguns momentos, pairavam no ar como balões opacos, que venciam a gravidade. Logo no primeiro treino mostrou ser um "atleta diferenciado". Quando o sol se escondeu, os mosquitos começaram a incomodar e não dava mais para reconhecer o contorno da bola na grama escura, o técnico deu um apito final chamando os meninos a margem do campo.

Imediatamente saudou com um bem vindo o calouro. “Vamos receber o nosso novo colega com uma salva de palmas. O Jairson vai treinar com a gente”. Nada mais se falou, pairava entre todos uma reverência digna dos ídolos; o gramado se encheu de silêncio.

Depois que dispersou a gurizada, técnico e pai conversaram: “Preciso de apenas seis meses e vamos levar esse menino para um teste no juvenil do Flamengo”. Conheço a equipe técnica de lá. Eles já me pediram para ficar de olheiro; vivem me telefonando para saber se achei algum talento”.

Bastaram os meses previstos. Jairson criou músculos nos braços, as pernas engrossaram. Finalmente o moleque se acostumou com chuteiras. Os cravos davam-lhe a estabilidade para rebolar e como ele sabia requebrar, bailar diante de zagueiros muito mais velhos e fortes, possuia a ginga dos campeões. "Nasceu um novo Fenômeno", repetiam todos.

O técnico do Gentilândia nem precisou pedir favores. Olheiros de outros times se responsabilizaram de alardear a grandeza de Jairson, cortejado como um principezinho. Seu pai recebia ofertas, algumas tentadoras: “Eu revelo seu filho e profissionalizo ele com o melhor salário já pago para um infantil iniciante", assim propôs um empresário que negociava jogadores pela Itália. “Esse menino está se perdendo aqui”, avisou outro. “Ele tem que ir direto para a escolinha do Real Madri”, aconselhou um assessor bem vestido que falava com um sotaque mal disfarçado. O pai de Jairson, entretanto, não abria mão de seu compromisso com o Gentilândia, convicto que o primeiro olheiro e o primeiro técnico deveriam ser galardoados pelo sucesso do filho.

Naqueles seis primeiros meses, os dias passaram numa velocidade incrível. Contudo, todas as noites o pai de Jairson, mirava o teto, esperando a chegada do sono. Não conseguia relaxar e dormir porque delirava de felicidade; via-se comprando o seu primeiro carro, levando sua mulher a uma joalheria. Prometia a si mesmo não cobiçar carros muito luxuosos. Achava alguns jogadores pernósticos porque gastavam muito dinheiro, só para se exibirem. Ele se contentaria com aquele jipe de cor preta, tração nas quatro rodas. "Só quero que venha com ar-condicionado", falava para si mesmo. E claro, colocaria uma fina película para escurecer os vidros. "Precisaremos de privacidade", confabulava nas madrugadas insones. Com todos esses pensamentos fervilhando, o sono não vinha. Adormecia já exausto e acordava com um friozinho na boca do estômago que lhe dava calafrios por todo o corpo.

Durante aqueles seis meses, Jairson continuava jogando no campinho arenoso do bairro, sempre descalço e sem camisa. Antônio mantinha seu camarote especial para assistir aos jogos dos meninos, e o placar mantinha-se elástico. Agora, com os trienos no Gentilândia, havia uma diferença: qualquer time em que Jairson jogasse precisava ter dois a menos. Na lógica da meninada, ele valia por dois.

Antônio também sonhava. Mesmo que o pai do prodígio nunca tivesse prometido nada, ele se convencia, entre um copo e outro de cerveja: “Ele não se esquecerá de mim, sei que se lembrará que fui eu que enxerguei o potencial do Jairson antes de qualquer pessoa. Se ele comprar ao menos uma casinha prá mim, pode ser aqui no bairro mesmo; se eu sair do aluguel, já me darei por satisfeito”.

Na sexta-feira que antecederia o grande dia, o treino foi especial. O técnico do Gentilândia ja tornara Jairson o centro de todas as atenções. Tudo se concentrava nele, afinal de contas, aquelas pernas garantiriam o sucesso de todos. Quando sentava para almoçar, antes de seguir para os treinos, repetia para sua mulher: “Imagina ser reconhecido como o primeiro treinador do futuro astro do futebol mundial”. Mesmo conhecendo a história do Pelé e sabendo que seu primeiro treinador nunca enriquecera, tentava se convencer: “No passado não havia tanto dinheiro assim”, hoje a situação é outra.

Descansariam no sábado para, no domingo, treinarem às oito da manhã. Às dez haveria um amistoso de apresentação. Dois diretores do Milan prometeram comparecer, já impressionados com os relatos que chegavam à Europa. No Gentilândia corriam boatos que os visitantes dariam uma bolsa de estudos e pagariam um salário para o pai cuidar só do treinamento do filho. Chegavam comentar que todo o Gentilândia seria subsidiado até a época de levar o menino para a Europa, juntamente com o técnico e toda família.

Naquele sábado, depois de ordenar ao Jairson que não saísse de casa para comprar doce, pai e mãe foram ao supermercado, tarefa que sempre os consumia até meio dia. Sentado diante da televisão, o moleque não pensava, não refletia, não imaginava e sequer cogitava que o seu destino de menino pobre mudaria na manhã seguinte. Triste por não poder saborear o doce, deixava-se entreter com o desenho animado da televisão.

Por esses momentos chegaram os dois melhores amigos de Jairson com o convite de jogar aquela “peladinha leve”. Seria apenas um “joguinho de meia hora”. Pelo cálculo infantil, fariam alguns gols e voltariam para casa sem o pai notar. Do jeito que estava, só de calção, Jairson desembestou com os amigos. Ele ia fazer o que mais gostava.

No caminho, contemplaram as mangueiras próximas do campinho, todas carregadas. Muitas mangas amarelas pendiam apetitosas. Pareciam chamar pelos seus nomes. Os três resolveram chupar uma, antes de brincar de bola. Não resistiam a beleza encantada daqueles frutos maduros. O trio se converteu em alpinistas, avidamente escalando o tronco. Queriam chegar no cume, pois nos galhos mais altos estavam as mangas mais suculentas.

Lá em cima, Jairson esticou-se para pegar a manga mais bonita. Um dos amigos tentou firmar-se no galho que não suportou o peso dos dois, e se partiu. Hirto, sem entender o que acontecia, de cabeça para baixo, e com os pés apontados para uma lua pálida que ladeava o sol, Jairson se estatelou no chão.

No enterro todos se consolavam: “Quebrou a cabeça, mas vejam, seus pés continuam lindos!”.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Imigrantes e emigrantes




Este mundo é mesmo curioso! Não se sabe o que faz alguém querer mudar só por mudar, mas sabe-se o resultado disto.
Os portugueses emigram para outros paises da Europa para trabalharem em serviços braçais na : Espanha,França. Alemanha, Bélgica, Holanda, Luxemburgo, Suíça,etc...e nos EUA .
Quem vai preencher os espaços desses trabalhadores em Portugal? os brasileiros , os africanos , europeus do leste, pelo que vi em minha mais recente viagem a Portugal.
Quem vai preencher o lugar deixados por estes brasileiros na mão de obra aqui no Brasil?
Chilenos, argentinos, bolivianos, paraguaios e etc....
Um dia uma amiga me disse que o irmão estava trabalhando como garçom num restaurante na Espanha, e que aqui no Brasil ele se recusava a fazer esse serviço, eu indaguei se ele viveria melhor lá fazendo a mesma coisa, ela me respondeu que ele vivia um pouco melhor financeiramente , porém longe de toda a família e dos costumes da terra.
A ilusão de enriquecer cega as pessoas.Não sei o quanto vale à pena esse tipo de aventura e nem porque alguém prefere deixar seu mundo e arriscar por um mundo desconhecido.
Não é o caso dos imigrantes europeus que vinham trabalhar na lavoura do Brasil, aqui havia terra para plantarem e trabalharem, certo que ,num serviço braçal, pesado, mas tinham ONDE trabalhar.É o caso de meus avós que vieram da Espanha em 1924. Depois mudou o tipo de imigração, por volta de 1950, os imigrantes já vinham com a intenção de explorar o comércio e a industria local, pois os patrícios que estavam aqui desde 1920, tinham prosperado, não trabalhavam mais na lavoura e ofereciam ajuda aos que haviam ficado na terra, é o caso de meus sogros, que vieram de Portugal em 1954, não havia terra para sustentar tanta gente, e nas cidades era preciso que se tivesse um oficio e assim mesmo, a concorrência era grande.
Sempre ouço dizer que se os portugueses e os filhos destes nascidos aqui no Brasil, voltassem para Portugal, não haveria espaço.Não pesquisei , não sei a veracidade disso, mas sei que cerca de 1,3 milhão de portugueses e seus filhos vivem hoje no Brasil, principalmente nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro.
O mesmo acontece com os italianos, japoneses e árabes

Talvez seja essa mesmo a questão, sem levar em conta , o tipo de governo, ou seja lá o que for , as pessoas precisam espalhar-se pelo mundo para preencher os espaços.Se todos voltassem como seria? não sei! Mas sei o transtorno que causou a volta dos "retornados" à Portugal, e dos "dekasegues" ao Japão .Sei também que os brasileiros na Europa não são bem afamados. Por que? Porque a grande maioria dos que imigraram ,vem das classes menos favorecidas,não têm estudos ou qualificações, então não conseguem achar um trabalho aqui por falta de conhecimento e têm que concorrer (para serviços braçais) com uma grande população tão mal instruída como eles, então emigram, dando uma mostra ao mundo de pessoas mal educadas e as vezes com baixo valor moral.O Brasil sendo um grande pais, com uma grande população pobre, uma diversificação de religiões, incluindo pessoas descendente de índios , é lógico que terá uma grande quantidade de mulheres facilmente aliciadas para prostituição.
No intercâmbio dessa imigração surgem as práticas,como vir passar férias no nordeste.Ótimo receber uma família de turistas europeus! Mas nem sempre é assim, estamos lutando contra o turismo sexual,onde também a miséria propicia esse tipo de aliciamento.Um lugar cheio de turistas que procuram aventuras e trazem euros,
uma população pobre, analfabeta, sem perspectivas de futuro, só pode prevalecer a lei da oferta e procura.
A aproximação maior de portugueses e brasileiros deve-se a lusofonia, é lógico !
Tenho observado que aqui no Brasil, quando viajamos para algum lugar sossegado dentro do país , geralmente com praia, vida tranquila, vemos estrangeiros, vindos da Inglaterra, Estados Unidos, França, Espanha, Holanda, etc..que são donos de hotéis, pousadas e restaurantes.Talvez seja o sonho de muitos seres humanos, morar e trabalhar num lugar assim.Pode ser que todos os imigrantes e emigrantes procuram chegar finalmente a isso, mas em principio, sujeitam-se apenas a sobreviver e na maioria das vezes, envelhecem e morrem só conseguindo isso: sobreviver até a chegada da morte.

Grupos de imigrantes que vivem no Brasil atualmente:

árabes( palestinos, egípcios, marroquinos, jordanianos, iraquianos,sirios)15 milhões de descendentes
alemães.........176.422
chineses.........220.000
coreanos ........150.000
espanhóis .....750.000 -somando filhos
filandeses .......90.000
Italianos ......... 1.500.000 -somando filhos
japoneses...........1.500.000-somando filhos
lituanos............1.000.000-somando filhos
poloneses ..........60.000
portugueses 1.500.000-somando filhos
checos 500.000-somando filhos
ucranianos 100.000-somando filhos
Chilenos, bolivianos, paraguaios, argentinos e outros sul americanos, não têm registro total, OS LEGAIS SÃO 400.000
Mais de 4,5 milhões de negros foram trazidos da África, como escravos, durante o período do Brasil Colônia

Vamos e voltamos, tornamos a ir e tornamos a voltar, afinal o mundo é de todos.
Se olharmos lá de cima, do infinito, veremos um planeta azul, sem nenhuma fronteira a separar um pedaço do outro.

Wanda Wenceslau

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Primavera





Num dia frio e chuvoso de inverno resolvi escrever minhas lembranças, meus causos e minhas leituras preferidas, num cantinho onde eu pudesse repartir com todos, então criei este blog.
Esperando a primavera chegar fui escrevendo coisas, finalmente ela chegou! Hoje começa a primavera no Brasil!
Começou com dia chuvoso e frio aqui em São Paulo,mas as flores já estão abrindo seus botões para colorir o mundo!
Agora vou continuar escrevendo e esperando o verão, o outono, o inverno e a primavera do ano que vem!


Wanda Wenceslau

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

A morte!




"Quando morremos? Na verdade, morremos todos os dias. Morte são também nossas decepções, nossos projetos falidos, nossas ideias abortadas. Morte é tudo o que nega a vida. A morte definitiva, a que encerra todos os atos, a que nos apresenta a vida concluída, dessa não podemos tratar porque ela nos excede. Restam-nos os insucessos que a anunciam, neles acenam os signos do que não nos é dado alcançar. Esperamos e conjeturamos. Como poderíamos, de outro modo, elevar-nos acima da solidez dos corpos que nos cercam, assinalando-lhes a precariedade?" (SCHÜLER, 2001: 196).

Quantas vezes morremos em vida? Quantos projetos abortados? Quantas decepções? Num primeiro momento a morte nos atinge, congela, impede. Mas assim que vivemos nosso luto, que choramos nossos sonhos mortos, nova vida surge: novos planos, novas possibilidades, às vezes melhores que as anteriores. Quantas vezes se faz necessário que abortemos um projeto falido para darmos lugar a uma proposta mais condizente com as possibilidades reais? Quantas outras vezes necessitamos negar uma ideia para que outras possam surgir? Quantas vezes aquele que nos contradiz e nos provoca ao abandono de um posicionamento fechado nos impulsiona, ao mesmo tempo, ao renascimento, através de novas posições?

O problema é que tememos a morte, nos apavoramos diante dela, ao invés de vê-la como possibilidade de vida. Queremos somente a vida, o que é, como afirma Schüler, utopia. Não há vida sem morte, nem morte sem vida. Poderíamos ficar com Epicuro que nos garante que não devemos temer a morte, porque enquanto estamos vivos ela não está presente, e quando ela está, nós é que não estamos.

"Então, o mais terrível de todos os males, a morte, não significa nada para nós, justamente porque, quando estamos vivos, é a morte que não está presente; ao contrário, quando a morte está presente, nós é que não estamos. A morte, portanto, não é nada, nem para os vivos, nem para os mortos, já que para aqueles ela não existe, ao passo que estes não estão mais aqui. E, no entanto, a maioria das pessoas ora foge da morte como se fosse o maior dos males, ora a deseja como descanso dos males da vida." (EPICURO, 2002: 29).

Apesar de inevitável, lutamos constantemente contra a limitação que nos é imposta. Buscamos todos os meios possíveis para preservar a vida. O desenvolvimento tecnológico, o investimento em medicamentos, as pesquisas sobre formas de ampliar os limites da vida são frequentes e buscados em larga escala na sociedade atual. Há quem aposte na construção dos ciborgues, considerando a mistura de silício com material genético como um ponto de partida para a imortalidade. Há quem defenda a possibilidade de um download de nossa consciência para uma máquina, permitindo assim a manutenção da vida em outro formato, em outro hardware, como, por exemplo, Kurzweil, em A era das máquinas espirituais.

Mas nos preocupamos com outras formas de morte? Claude Levi-Strauss, em Antropologia Estrutural, descreve algumas situações em sociedades primitivas, onde os condenados à morte simbólica - ou seja, aqueles que por algum motivo foram condenados por suas sociedades a serem tratados como se não existissem, como se tivessem morrido - em pouco tempo morriam de fato.

Quanta morte há, então, na indiferença? Afirma Buber, em Eu e Tu, que o contrário do amor não é o ódio, e sim a indiferença. A indiferença não provoca, exclui; não discorda, anula; impede a vida, mata. Diz Schüler: "Há espaço comum quando a diferença não provoca indiferença." (2001: 145). No espaço comum construímos, ampliamos as margens do rio que é e não é o mesmo. O espaço comum propicia a morte do mesmo para o surgimento do novo, do eu que se constitui junto-com-o-outro, daquele que sai do idiotismo e, em seu movimento, cria a vida.

Se buscamos a vida e tememos a morte, porque nos tornamos a cada dia mais ensimesmados? Por que constituímos uma sociedade cada vez mais individualista? Por que tratamos o outro com indiferença? Por que nos permitimos tratar com indiferença? Qual a diferença que fazemos no mundo onde vivemos? Se morte e vida são complementares, se morremos a cada dia e isso nos permite renovação, qual a nossa renovação diária?

Monica Aiub

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Namoro antigo




Sabe como eram os namoros lá pelos anos cinquenta aqui no Brasil?
Existiam coisas curiosas!
Os rapazes e as moças se conheciam através do seu círculos de amigos, na vizinhança, numa viagem de férias, na faculdade ou no circulo familiar, através dos amigos dos irmãos , e por ai vai.No interior geralmente se conheciam na praça onde ficavam dando voltas , os rapazes para um lado e as moças para o lado oposto para poderem se ver de frente quando um passasse pelo outro.
Quando o casal começava o namoro, levava algum tempo para poder segurar a mão da moça, mais tempo ainda para colocar a mão no ombro dela, para beijar então, as vezes mais de mês.Assim depois do casal já ser reconhecido como namorado, era hora dele pedir a mão dela em casamento.
O rapaz chegava meio sem confiança, porque a maioria dos pais eram bastante severos, já vinha logo uma porção de recomendações quanto as atitudes com relação a moça, pois ela não poderia cair na boca da vizinhança e ficar" falada".
E as comadres fofoqueiras não perdiam tempo não .Era só a moça desmanchar o namoro e começar a namorar outro rapaz , lá vinham elas contar que a garota já tinha namorado antes, que a viram se beijando no portão, etc e tal, ai o rapaz já ficava envergonhado, pois não queria assumir compromisso com uma moça "falada".
E assim era.Muito diferente do namoro de hoje em dia, onde todo mundo fica com todo mundo, pelo que ouço falar.Chiii!-lá venho eu fofocar!
O pai de meu amigo tinha uma estratégia que o levava a aceitar ou recusar o pedido de namoro dos pretendentes para as filhas.
A moça convidava o rapaz para tomar um café com a família no dia do pedido de namoro, até ai, tudo bem, era uma maneira de conhecer a todos ao mesmo tempo, porém, na hora de servir o tal cafezinho que já vinha adoçado, visto que naquele tempo nem adoçante existia, o pai da moça mandava que servissem ao rapaz um café temperado ...com sal ....e para o restante dos presentes um café comum adoçado com açúcar.
O teste era o seguinte: Se o rapaz reclamasse do café , mesmo vendo que todos estavam bebendo sem reclamar, o pai concedia a mão da filha em namoro, caso contrário se o rapaz se calasse, ele já antevia que não seria um bom marido, pois não tinha coragem de se defender , quanto mais de defender sua filha.
Psicologias à parte, era o terror ter que enfrentar o pai da moça, muitos não se casavam por causa disso, imagina ainda reclamar do café da sogra? Nem morto!
No final dos anos cinquenta , quando eu tinha uns nove anos , um menino mais ou menos da minha idade ,que passava para ir a escola e as vezes me encontrava na porta de casa, me disse que ia falar com meu pai e pedir minha mão em namoro, eu disse a ele que meu pai ia bater nele de cinta.Nunca mais ele passou por aquela rua...imagina se ele ia se importar com simples café com sal, melhor foi falar da cinta mesmo!


Wanda Wenceslau

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Escolhas


Os caminhos da vida são feitos de decisões e escolhas.
A roupa que vestimos, mesmo que nos tenha sido presenteada, optamos por vesti-la hoje.
O nosso trabalho, mesmo se não gostarmos dele, é consequencia de algumas escolhas fizemos no passado.
A religião que temos, também é uma escolha,fomos doutrinados, mas podemos discordar , e seguir outra doutrina, ou nenhuma !
O companheiro que temos foi uma escolha, podemos não combinar , mas acabamos escolhendo ficarmos juntos.
A todo momento, queiramos ou não, conscientes ou inconscientes, por ação ou omissão, estamos sempre fazendo escolhas. E nunca é demais lembrar que não escolher já é uma escolha.
Muito tem a ver com o nosso perfil, falando psicologicamente.Quando recebemos a educação de nossos pais, já vamos nos acostumando a ver a vida com parâmetros indicados por eles.Depois ,é lógico, vem o livre arbítrio.Nossos pais não nos ensinaram a roubar, mas se por uma falha de caráter eu não me importar em ser apontado como ladrão:vou roubar!
Nós podemos escolher os significados que damos a tudo o que fazemos e isto pode representar uma grande diferença.
Eu vou à escola porque gosto de estudar ,ou vou à escola porque meus pais me obrigam, ou vou à escola porque quero ser uma pessoa com conhecimentos suficientes para enfrentar o futuro.
As pessoas tendem a se lamentar ou arranjar culpados para seus fracassos, em vez de usar o livre arbítrio para tentar mudar.
Temos um presente , que é a oportunidade de escolher, ao mesmo tempo pode nos parecer um castigo.E se eu escolher errado?
Já vimos muitos filmes de ficção em que a heroína ou o herói voltam ao passado para escolher outro caminho e nem sempre se dão bem, acaba concluindo que o caminho anteriormente escolhido era o melhor!
Não basta a escolha, pois uma série de influências determinarão o caminho.
Como citou JohnTolkien "Aquilo que nós mesmos escolhemos é muito pouco:a vida e as circunstâncias fazem quase tudo."
As pessoas podem optar por fazer certas coisas, porque sabem que é o que os outros esperam delas.
As vezes nas indecisões deixamos que outros escolham por nós.Isso vem a ser uma espécie de covardia!Não queremos arriscar-nos, porque se não der certo, a culpa não vai ser nossa.
Exercite seu livre arbítrio, escolha! Pelo menos você nunca ficará com a sensação de que não tentou! Se der certo?Tanto melhor!

Wanda Wenceslau

sábado, 12 de setembro de 2009

Muy amiga!


A minha vizinha Adelaide, vinha todas as tardes tomar um café em minha casa.Falamos dos filhos, da escola , do passado, e nesse assunto não podia faltar Maria Rita, sua melhor amiga.
Adelaide falava dela com um endeusamento fora do comum.Contava que estudaram juntas desde a pré- escola no Liceu Carvalho Pinto, que estiveram juntas até terminarem o colegial ,que se formaram no mesmo dia e que eram unha e carne!.
Não havia tarde que o assunto do café não trazia Maria Rita !Falava das brincadeiras que faziam juntas no pátio da escola, e que depois de crescidas namoravam rapazes amigos, que saiam juntas, que uma vivia na casa da outra, enfim eram inseparáveis.
Lamentava o fato de Maria Rita após o casamento ter ido morar na Inglaterra, pois seu marido havia sido transferido para trabalhar na embaixada brasileira naquele país.
No começo trocaram alguns telefonemas , mas passaram-se os anos e perderam-se os telefones e a comunicação entre elas acabou.
Adelaide só tinha noticia de sua idolatrada amiga através de uma prima desta .Sabia que Maria Rita estava muito bem, rica até, pois havia aberto uma fábrica de roupas e que fazia muito sucesso em Londres.
Mesmo quando meu marido e o dela combinavam uma partida de cartas entre nós, os dois casais, sempre sobrava uma brecha para Adelaide falar da amiga.O marido dela até já estava arranjando um jeito de irem para Inglaterra para que as amigas se encontrassem.
Um dia, Adelaide chegou em minha casa ofegante, com os lindos olhos verdes esbugalhados, louca para me contar a novidade.
__Adivinha?Sabe quem chega no próximo sábado?
__Julio Iglesias, palpitei, pois sabia que Adelaide era vidrada por ele.
__Ma-ri-a Ri-ta, soletrou ela como se estivesse pronunciando um nome sagrado.
Fiquei contente! Finalmente iríamos conhecer a maravilhosa amiga de minha vizinha.Pensei no quanto ela deveria estar contente com a possibilidade de rever a amiga dez anos depois!
___Você vai comigo ao aeroporto? A prima dela disse que o vôo chega as 19,30 hs .
___Claro! Não vou perder esse encontro por nada neste mundo!
Começaram os preparativos para o encontro, parecia que Adelaide ia se casar novamente, já tinha hora marcada na cabeleireira, manicura, massagem, roupa nova,tudo para fazer bonito na frente da amiga.
Chegou o sábado,Adelaide toda aparamentada num lindo vestido azul e eu no meu basiquinho tubinho preto, fomos com uma hora de antecedência esperar o desembarque.Alguns parentes de Maria Rita foram chegando para recepcioná-la também, inclusive a tal prima que havia avisado da sua chegada.
Começaram aparecer os primeiros passageiros do vôo vindo de Londres, e pessoas foram reconhecendo os entes queridos e foram se abraçando, cumprimentando-se,
apresentando novos familiares, e Adelaide parecia uma girafa esticando o pescoço para ver se reconhecia a amiga entre eles.
Quase todos já tinham desembarcado, quando uma mulher alta, magra, toda perua ,exibindo uma roupa country , umas botas até os joelhos e um chapéu de tipo Indiana Jones , começou a atravessar a porta de vidro do desembarque.
Era ela , Maria Rita!Os familiares aproximaram-se e foram recepcioná-la.Abraço pra cá, pra lá, palavras de boas vindas, etecetera e tal, até que Adelaide Ficou frente à frente com Maria Rita.Olharam-se , na expressão de Adelaide uma felicidade sem fim, na expressão de Maria Rita uma interrogação, tipo quem é você?
Adelaide disse:
___Maria Rita , não se lembra de mim?
A amiga olhou, mediu, olhou, e disse :
__Não! Não lembro!
Adelaide abriu mais o sorriso, como se quisesse ser reconhecida pelos dentes , e disse:
___Do Liceu, estudamos juntas, lembra ? Sou Adelaide!
Maria Rita abriu os olhos como se tivesse aberto um arquivo na memória e disse em voz bem sonora!
____Nossa! Como você está gorda! Engordou! Nem te reconheci!
Adelaide deu um passo para traz e fechou o sorriso, quase trincando os dentes e com humildade falou:
____Desculpe! Acho que me enganei! A Maria Rita que conheci jamais me receberia assim, foi um engano.E virou as costas para sair do meio do povo que olhava a cena sem saber como se comportar.
Eu me postei diante de Maria Rita e disse:
___E de mim , você lembra?
Já muito sem graça ela responde:
____Não, você também é minha amiga?
Subi bastante no salto e respondi:
___Deus me livre, você acha que eu ia ser amiga de uma brega que desce do avião parecendo que vai para um rodeio?Vê se te enxerga perua ridícula!
E sai atrás de Adelaide!
Depois disso nunca mais tocamos no nome de Maria Rita nos nossos papos de cafezinho!
A minha amiga Adelaide continua sendo uma gordinha linda!

Wanda Wenceslau

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Infância nos anos 50



Penso que sou feliz por ter nascido no último ano da primeira metade do século passado! Complicado?Nem tanto! Calcule!.
Convivi com pessoas maravilhosas, cuja educação , para os jovens de hoje em dia, parece piegas.
Beijar a mão do avô e da avó e pedir a benção....__Deus te abençoe!
Vestir a melhor roupinha no domingo para ir à missa.Confessar, comungar, beijar a mão do padre sem dizer nada e ele também responder em silêncio.
Chegando em casa, já teria que trocar a roupa por uma mais usada e preparar-se para macarronada com galinha, pois é, não se dizia frango, embora na maioria das vezes fosse frango mesmo.Se desse sorte e tivesse visitas para o almoço, podíamos contar com um guaraná sem gelo, senão seria limonada ou água com groselha.
Na sobremesa , frutas ou um pudim de leite
As pessoas eram tão puras e simples como esse cardápio.
Sobrava a tarde para visitar a avó e encontrar os primos.
A avó geralmente tinha mais do que seis filhos e juntando com noras, genros, netos e netas, a casa ficava que era uma festa!
Os primos mais velhos esmeravam-se nas traquinagens.Se a casa da vó tinha árvores,inventavam balanços, armadilhas para pássaros e todas as macaquices possíveis.
Se porém, só restava o velho sótão ou palheiro onde se guardavam ferramentas, ai coitadas!No dia seguinte iam estar todas esparramadas e frustradas na tentativa dos primos construírem ou consertarem algum brinquedo.
Numa dessas visitas à casa da nossa avó, meu irmão levou uma caixa de bombinhas.Acho que ele já tinha arquitetado todo o plano.Lá chegando abriu todas elas, e tirou a pólvora, com ela fez um caminho e no final deste colocou algodão e gravetos. Suponho que ele tinha assistido algo parecido num seriado de matinê.Só faltava a coragem para apropriar-se dos fósforos do fogão e atear fogo na engenhoca.Mas isso também ele já tinha pensado.Tínhamos uma prima que era bem corajosa, atrevida e não tinha medo de surra.Ela concordou em buscar o fósforo e acender o rastilho.Foi rápida, em menos de dez minutos ela já estava com a mão queimada !Ela não acendeu bem no inicio da pólvora e esta quando o fogo pegou, conseguiu alcançar a sua mão.
Os primos ficaram de castigo, inclusive , eu . A prima atrevida agora chorava no colo da avó e a mãe lhe prometia boa surra.O meu irmão, muito sem graça, ficava imaginando o que é que não deu certo!
Ah! se ele tivesse colocado fogo num graveto mais comprido em vez de acender diretamente com o fósforo!
Fica pra próxima! Ou será que domingo que vem vou tentar desmontar aquela máquina fotográfica que meu pai tem guardada no quarto dele?
Belas tardes! Belos dias!

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

A verdade sobre o casamento



A Verdade sobre o Casamento
Perguntaram hoje para mim,no horário do almoço, como consegui ficar tanto tempo casado. É uma pergunta bem comum nas rodas de amigos, quando conto que estou casado a quase oito anos. Estranho como essa pergunta vem acompanhada de um certo preconceito ou mesmo indignação, afinal, como eu ouso estar a tanto tempo casado, num mundo de casamentos relâmpagos e divórcios trovões. Sempre respondo com bom humor, dizendo que o meu casamento é eterno porque não vai durar pra sempre. Eles se assustam, mas é difícil mesmo explicar que casamento não tem obrigação de durar...

Um casamento não é feito de sociedade, de papel passado ou de alianças. Um casamento não é feito de promessas hipócritas de fidelidade eterna ou de lealdade prisão. Um casamento não é uma fuga da casa dos pais ou da casa do medo de passar a vida inteira sozinho. Um casamento não é uma união fútil em nome da religião, do “bucho” não esperado ou do interesse. Quem é casado de verdade, não precisa de anel, seus corações fazem a ponte para o sempre, ligando-os em nome da manifestação do amor.

Casamento é uma parceria, um contrato espiritual entre duas pessoas, que independe de sexo, raça, crença e aparência. Contrato espiritual, pois o laço que une um casal não pode ser descrito por idioma algum, só expresso pela linguagem dos corpos, pela expressão no olhar, pela comunicação entre ouvidos quando se troca sussurros de amor. Contrato que nenhum padre, pastor ou guru possa sacramentar, pois o amor por si só é sagrado, dado incondicionalmente no encontro do olhar, na amizade profunda que não mais satisfeita em abraçar, quer estar dentro, fora, num eterno se encontrar e compartilhar.

Qual o segredo para que um casamento dure mais que um dia, um mês, um ano? Não há segredos, pois pessoas casadas de verdade estão tatuadas de liberdade. São almas livres que sabem que nada dura para sempre e ainda, cada segundo ao lado um do outro é eterno; pois se vive o presente, sem perder tempo com amanhã. Liberdade nascida do respeito, da amizade e da consideração que ambos carregam e permeiam na sua união. Liberdade de compreender que os dois possuem visto para o país do Voltar a Ficar Sozinho, se for esse o destino que um deles optar. Liberdade para compreender que se é tempo de partir, pior seria ficar por pena, lealdade ou em nome da história do casal.

O casamento não é perfeito, pois nada nesse mundo está livre da “dualidade”. Há momentos bons e outros momentos não tão bons assim. Há arranca rabo, há brigas infantis onde se fica de mal e de bem no cair de um amanhecer. Há quebra pratos, arranha Cds e há também greve de carinho, de sexo e de sorriso; mas o casal sabe que embora isso ocorra vez ou outra, estar junto é bom demais para brigar ou para se viciar em jogos de gato e rato. Desentendimento ocorre, desrespeito é intolerável.

Casamento não permite possessão, ciúme doentio, nem tão pouco libertinagem, pois liberdade exige respeito, consideração pelo parceiro (a), e acima de tudo, respeito por si próprio, pois somente dando o devido valor a si mesmo, conseguimos valorizar algo tão precioso como a união entre duas pessoas.

Casamento deriva da palavra casa e isso nada tem a ver com teto, tijolo e garagem. Quando encontramos alguém que valha a pena dividir a nossa casa ( corpo, mente e espírito) encontramos um lar; lar que carregamos conosco onde quer que formos.

Por fim, esses casamentos (e são raros) sustentam-se por tanto tempo, pois há uma preocupação constante em renovar-se; em surpreender quem acha que já viu e sabe todos os truques; em arrumar-se; embelezar-se, pois cada dia ao lado de quem se ama é uma festa, uma celebração em que precisamos vestir a melhor roupa, arrumar a casa e não se esquecer nunca de reconquistar e namorar..

Frank Oliveira

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Sete de Setembro-Feriado Nacional





Introdução
A Independência do Brasil é um dos fatos históricos mais importantes de nosso país, pois marca o fim do Brasil colônia e a conquista da autonomia política. Muitas tentativas anteriores ocorreram e muitas pessoas morreram na luta por este ideal. Podemos citar o caso mais conhecido: Tiradentes. Foi executado pela coroa portuguesa por defender a liberdade de nosso país, durante o processo da Inconfidência Mineira.

Dia do Fico
Em 9 de janeiro de 1822, D. Pedro I recebeu uma carta das cortes de Lisboa, exigindo seu retorno para Portugal. Há tempos os portugueses insistiam nesta idéia, pois pretendiam recolonizar o Brasil e a presença de D. Pedro impedia este ideal. Porém, D. Pedro respondeu negativamente aos chamados de Portugal e proclamou : "Se é para o bem de todos e felicidade geral da nação, diga ao povo que fico."

O processo de independência

Após o Dia do Fico, D. Pedro tomou uma série de medidas que desagradaram a metrópole, pois preparavam caminho para a independência do Brasil. D. Pedro convocou uma Assembléia Constituinte, organizou a Marinha de Guerra, obrigou as tropas de Portugal a voltarem para o reino. Determinou também que nenhuma lei de Portugal seria colocada em vigor sem o " cumpra-se ", ou seja, sem a sua aprovação. Além disso, o futuro imperador do Brasil, conclamava o povo a lutar pela independência.

O príncipe fez uma rápida viagem à Minas Gerais e a São Paulo para acalmar setores da sociedade que estavam preocupados com os últimos acontecimento, pois acreditavam que tudo isto poderia ocasionar uma desestabilização social. Durante a viagem, D. Pedro recebeu uma nova carta de Portugal que anulava a Assembléia Constituinte e exigia a volta imediata dele para a metrópole..

Estas notícias chegaram as mãos de D. Pedro quando este estava em viagem de Santos para São Paulo. Próximo ao riacho do Ipiranga, levantou a espada e gritou : " Independência ou Morte !". Este fato ocorreu no dia 7 de setembro de 1822 e marcou a Independência do Brasil. No mês de dezembro de 1822, D. Pedro foi declarado imperador do Brasil.

Pós Independência
Os primeiros países que reconheceram a independência do Brasil foram os Estados Unidos e o México. Portugal exigiu do Brasil o pagamento de 2 milhões de libras esterlinas para reconhecer a independência de sua ex-colônia. Sem este dinheiro, D. Pedro recorreu a um empréstimo da Inglaterra.
Embora tenha sido de grande valor, este fato histórico não provocou rupturas sociais no Brasil. O povo mais pobre se quer acompanhou ou entendeu o significado da independência. A estrutura agrária continuou a mesma, a escravidão se manteve e a distribuição de renda continuou desigual. A elite agrária, que deu suporte D. Pedro I, foi a camada que mais se beneficiou.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Lua-de-mel




Minha tia Carmem é uma pessoa muito simpática, poucas vezes a vi triste ou aborrecida.Nos anos 50 ela conheceu um rapaz e começaram o namoro
Era um casal muito apaixonado, sempre juntos de mãos dadas, pareciam a fotografia da felicidade.Ambos com gênios muito bons, não havia discussão entre eles.
Os pais do rapaz arrumaram uma casinha no mesmo terreno em que moravam e prepararam tudo para o casamento.
Foi uma festa bem simples combinando com a simplicidade dos noivos.
Não houve viagem de lua-de-mel, e logo na semana seguinte após o casamento, o marido, agora meu tio, voltou ao seu trabalho numa marcenaria do outro lado da cidade.
Minha tia havia sido criada para as prendas domésticas e era o que ela sabia fazer.Arrumava a casa, cuidava de tudo com muito esmero.Todas as noites esperava o marido já com a mesa posta para o jantar, que era assim que a maioria das famílias viviam naquela época em que poucas mulheres trabalhavam fora de casa!
Tinha já se passado uns quinze dias do casamento, ela já habituada com o horário do marido chegar ,preparou o jantar bem em cima da hora da chegada dele, para que estivesse bem quentinho ao servi-lo.
Tudo parecia bem, o feijão bem temperado, a carne de panela que ele tanto gostava, a salada com bastante azeite e o arroz....chiii , o arroz!
Correu para a cozinha, mas qual o que, o cheiro do arroz queimado , já envolvia todo o ambiente.
Apagou o fogo e levou a panela até pia, e as lágrimas já lhe cobriam as faces.
Destampou e ficou desiludida, toda a beirada do arroz estava queimada,pegou depressa uma travessa e tentou salvar o pouco que não havia ficado grudado, mas não se continha em lagrimas.
Se sentia ainda uma menina com a qual a mãe com certeza iria zangar-se por causa da falta de atenção.Sem conhecer direito o marido, ficou a imaginar que ele também se zangaria.Começou a tomar-lhe uma aflição que a fazia chorar em soluços , pois sabia que não havia tempo de cozinhar outro arroz antes do marido chegar.
Enquanto se desesperava pensando nisso, chega o príncipe encantado, não! não era a fada madrinha, ou seja , era o marido.
Vendo-a debulhadas em lagrimas e desespero, ocorreu-lhe pensar que algo grave havia acontecido e tomou-se de cuidados.
-Carmem! O que aconteceu? Estás doente?Machucou-se?
Ela atirou-se ao pescoço dele soluçando, e não conseguia dizer palavra.
Depois de acalmá-la, dar-lhe água para beber, confortá-la, dizer para acalmar-se e contar o acontecido , ela finalmente entre soluços disse:
_De-de-dei-xei( snif!).....deixei quei....mar(snif) o arroz. Aí deu uma enorme assoada no nariz já no lenço que trazia.
O marido, entre o surpreso e a vontade de rir e a pena que sentiu dela por ver o quanto ela queria-lhe bem, pois frustrou-se por não poder recepcioná-lo como planejara .
Passou outro lenço pelo olhos dela , enxugando-lhe as lágrimas e disse:
_Querida, tem algumas coisas sobre mim, que você ainda não sabe!
Ela levantou a cabeça olhando-o nos olhos , muito curiosa e assustada!
-Diga o que é que eu não sei?
Ele abriu um tremendo sorriso, olhando-a com ternura, e largou maior mentira de sua vida.
_Eu adoro arroz queimado!Sou louco alucinado por um prato de arroz queimado!
Ela engoliu a mentira, abraçaram-se , beijaram-se , caminharam para à mesa e foram comer aquele arroz queimado bom para recém-casados
Como é doce a lua-de-mel !!!!!



Wanda Wenceslau