xxxxxxx

******

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Mudança de vida





Havia uma mulher que vivia muito triste, achava que sua casa era feia e pequena , que a sua vida era muito sacrificada e que trabalhava demais.
A casa era simples, ficava  em uma chácara  grande, onde criavam uma vaca , um cavalo, alguns porcos, patos e galinhas.
Seu marido era um homem saudável e bem humorado, procurava de todas formas fazer com que ela e os três filhos fossem felizes,mas qual o que, a mulher
vivia reclamando com seu marido , maldizendo a vida que vivia e que ela tinha muito trabalho, choramingava dizendo que ninguém no mundo era mais infeliz que ela.
Levantava-se cedo, logo com o sol, quando o galo cantava e ia para a cozinha fazer o café.O marido já vinha logo em seguida, pegava a leiteira e ia tirar o leite da vaca.
Os filhos eram acordados por ela e logo ficavam prontos para ir à escola , pois a condução para levá-los até lá, chegava cedo.
Todos tomavam o café com leite, pão e queijo e comiam algumas frutas da época, fresquinhas, colhidas no quintal.
Depois que os filhos saiam para escola, ela ia alimentar os animais, e colocar a roupa suja de molho  na água e sabão.
Enquanto seu marido ia cuidar da horta, da plantação de milho e feijão ela se ocupava da arrumação da casa.
No tempo em que a comida cozinhava ela lavava a roupa e estendia.
Quando as crianças voltavam da escola, ela chamava o marido e juntos faziam as refeições, porém ,ela sempre vinha com muitas reclamações.
Dizia que faltava espaço na casa,que a sua vida era muito chata, que só saiam nos finais de semana e que achava que seu marido deveria tomar alguma providência para modificar a situação da família.
À tarde, os filhos e o marido se ocupavam dos serviços que não haviam sido feitos na parte da manhã, consertavam cercas e faziam arrumações no sitio.
Um dia, não aguentando mais as reclamações da esposa, o marido resolveu procurar um sábio que vivia nas proximidades e pediu-lhe um conselho.
_O que devo fazer para que minha esposa pare de reclamar da casa e do nosso modo de viver?Já que não posso fazer nada para mudar esta situação, gostaria que ela entendesse e parasse de reclamar.
O sábio aconselhou-o a ir colocando os animais para dentro de casa.Um dia o galo, depois as cabras, os porcos, os patos e as galinhas.
_Tá louco? Minha mulher vai ficar mais infeliz ainda!
O sábio disse-lhe que obedecesse e que se a mulher reclamasse,  dissesse que era uma simpatia  para que eles melhorassem de situação financeira , e que ele o  sábio, é que havia mandado.
O marido voltou para casa e fez exatamente o que o sábio mandara, no primeiro dia , o  galo, mesmo amarrado, andou quebrando umas louças e enchendo todo chão de estrume.No dia seguinte, as cabras que foram para dentro de casa além de sujarem tudo, deixavam um cheiro horrível e até comeram a toalha da mesa.
A mulher já estava quase louca, nem se lembrava mais de reclamar da vida, que agora  estava insuportável.Pior ficou quando o marido levou para dentro da casa os porcos e as galinhas.A mulher não queria desobedecer o sábio, achava que ia ficar rica, portanto aguentava tudo.
A família estava em pé de guerra, discutiam por tudo, viviam reclamando e ninguém queria mais entrar em casa.Tudo virou um inferno, já não havia mais harmonia.
O homem desesperado foi procurar o sábio e este lhe mandou começar tirar os animais , um por dia , assim como os havia colocado.
No primeiro dia com a saída dos porcos, todos já sentiram mais aliviados , no segundo dia quando saíram as galinhas, a casa ficou quase habitável.Cada animal que foi sendo retirado foi deixando a casa mais agradável e mais limpa.Assim com a retirada do último animal, a casa já parecia um palácio em comparação com que era uns dias antes.
A mulher começou  a arrumar e cuidar da casa, substituir por objetos novos  o que tinha sido quebrado e de repente a casa estava agradável e a vida muito melhor.
A partir daquele dia ela não mais reclamou do tamanho da casa e nem da vida que levava.O sábio veio e disse:
-Viu como a sua vida é boa?Poderia  continuar a ser do jeito que foi  até ha  alguns dias passados, mas veja como você é feliz agora !
Muitos de nós  somos como a mulher dessa história, vivemos querendo algo que já temos , só não sabemos valorizar!
É certo que temos sonhos, mas enquanto eles não se realizam não precisamos ficar de mal humor ou culpar o mundo.


"A vida é uma pedra de amolar: desgasta-nos ou afia-nos, conforme o metal de que somos feitos."George Bernard Shaw


Vamos combinar que viver uma vida reclamando dela, ninguém merece!


Wanda Wenceslau




*Esta história  foi adaptada, ouvi sempre contar, não sei quem é o autor*

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Beatles-While My Guitar Gently Weeps



Look at you all see the love there that's sleeping -Eu te olho inteira, vejo o amor que aí dorme
While my guitar gently weeps- Enquanto minha guitarra gentilmente chora
I look at the floor and I see it needs sweeping -Eu olho para o chão e vejo que precisa ser limpo
Still my guitar gently weeps- Enquanto minha guitarra gentilmente chora

I don't know why nobody told you -Eu não sei porque ninguém te disse
How to unfold you love -Como desdobrar seu amor
I don't know how someone controlled you -Eu não sei como alguém te controlou
They bought and sold you -Eles compraram e venderam você

I look at the world and I notice it's turning -Eu olho o mundo e eu noto que ele está girando
While my guitar gently weeps -Enquanto minha guitarra gentilmente chora
With every mistake we must surely be learning -Com todo erro nós certamente precisamos aprender
Still my guitar gently weeps- Ainda minha guitarra gentilmente chora

I don't know how you were diverted- Eu não sei como você foi distraída
You were perverted too -Você também foi corrompida
I don't know how you were inverted -Eu não sei como você foi invertida
No one alerted you- Ninguém te alertou
I look at you all see the love there that's sleeping- Eu te olho inteira, vejo o amor que aí dorme
While my guitar gently weeps- Enquanto minha guitarra gentilmente chora
I look at you all -Eu te olho inteira
Still my guitar gently weeps -Minha guitarra gentilmente ainda chora

(I look from the wings at the play you are staging -Eu vejo através dos ventos a peça que você está atuando
While my guitar gently weeps -Enquanto minha guitarra gentilmente chora
As I'm sitting here doing nothing but aging -Assim como estou sentado apenas envelhecendo
Still my guitar gently weeps) -Ainda minha guitarra gentilmente chora

domingo, 25 de outubro de 2009

Gente e paz


SIMBOLO DA PAZ

Tem gente que tem alma colorida. Olhar iluminado. Sorriso de bondade . Ao lado delas, a gente se sente num banco de jardim florido , sem ter pressa e sem querer que o tempo passe. Ao lado delas, sorrimos para todos e rimos de tudo, como se o mundo fosse mesmo só brincadeira. Só falamos de coisas boas e bonitas, desenrugamos a testa, deixando os problemas pra depois. O sorvete parece mais gostoso , o sol não queima e a neve não gela. O tempo é infinito.Tudo fica mais colorido e ar tem cheiro de rosas.


Muitas dessas pessoas passam nas nossas vidas por poucas horas, as vezes só a conhecemos quando já somos adultos, mas a sua importância é a mesma de um irmão, de um pai, de um amigo de infância.Perpetuam nossas lembranças para o resto da vida, vão sempre estar citadas num assunto ou noutro e vamos saber até o que diriam se nos pudessem responder.O perfume que usavam ,a cor que gostavam, a comida preferida, as palavras repetidas, tudo ficará nas nossas lembranças eternamente , fazendo a saudades agigantar-se e as lágrimas caírem. Sinto isso quando lembro dos meus tios, primos, avós, sogros e pessoas amigas que se foram para sempre.

Nas fotos mais coloridas do meu álbum de lembranças estarão pessoas que me deixaram muitos ensinamentos.Pessoas existem que nos dão lição de vida todos os dias.Umas encontramos as vezes , outras só conhecemos através do que escrevem, e como escrevem! Palavras que nos fazem refletir, sonhar, viajar,aprender,pesquisar,conhecer,enternecer,gargalhar,chorar,sorrir,e relembrar.

Pessoas com dom de música, conseguem enfeitar e colorir a nossa vida com notas musicais, notas tiradas do infinito da alma e que chegam até nós em sustenidos e bemóis.Enfeitam a melodia com letras que nos falam ao coração e a razão.

Mas aquele que passa por nós na rua ?De vez em quando, eu cumprimento, sim, pessoas desconhecidas. Ofereço sorrisos, olhares generosos, pequenas delicadezas. Há quem pareça se assustar e sequer retribua, o coração contraído demais para a gratuidade do gesto. Tem vez também em que oferto uma outra espécie de presente, que quem recebe jamais saberá que eu dei. Pode ser para alguém que eu sinta estar triste ou para alguém que eu perceba estar muito feliz, não importa. Não há lógica nem regra a ser seguida. Sem fazer ruído, a minha vida dirige para aquela pessoa a intenção de que a vida dela seja abençoada. Simples assim. Olhar alguém com amor, de perto ou de longe, é um jeito instantâneo de prece, eu acho. Realmente estamos todos em família na humanidade e que a paz que dizemos querer precisa começar no coração da gente. Na maneira atenta e generosa com que cuidamos de nós mesmos. Nos gestos delicados que estendemos aos outros. Grátis! Porque é assim que o ser humano começa dar um passo em direção à paz.

Wanda Wenceslau

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Vamos celebrar..........




Vamos celebrar a estupidez humana

A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja de assassinos
Covardes, estupradores e ladrões
Vamos celebrar a estupidez do povo
Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso Estado, que não é nação
Celebrar a juventude sem escola
As crianças mortas
Celebrar nossa desunião
Vamos celebrar Eros e Thanatos
Persephone e Hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade.
Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta de hospitais
Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos
Comemorar a água podre
E todos os impostos
Queimadas, mentiras e seqüestros
Nosso castelo de cartas marcadas
O trabalho escravo
Nosso pequeno universo
Toda hipocrisia e toda afetação
Todo roubo e toda a indiferença
Vamos celebrar epidemias:
É a festa da torcida campeã.
Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir
Não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar um coração
Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado de absurdos gloriosos
Tudo o que é gratuito e feio
Tudo que é normal
Vamos cantar juntos o Hino Nacional
(A lágrima é verdadeira)
Vamos celebrar nossa saudade
E comemorar a nossa solidão.
Vamos festejar a inveja
A intolerância e a incompreensão
Vamos celebrar a violência
E esquecer a nossa gente
Que trabalhou honestamente a vida inteira
E agora não tem mais direito a nada
Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta de bom senso
Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror
De tudo isso - com festa, velório e caixão
Está tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou esta canção.
Venha, meu coração está com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão.
Venha, o amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera -
Nosso futuro recomeça:
Venha, que o que vem é perfeição

 
Música :"PERFEIÇÃO" de Renato Russo-Composta em 1993... A letra parece cada dia mais atual....De lá pra cá nada mudou!A letra enfoca, de forma cortante e irônica, os aspectos de um país naufragado em corrupção política e descaso social.

domingo, 18 de outubro de 2009

INTERNET: O MITO AQUI E AGORA


INTERNET: O MITO AQUI E AGORA




Ineptire est juris gentium.




A inépcia é um direito de todos.
(Arthur Schopenhauer)


Em sua obra MITO E REALIDADE, Perspectiva, 2004, Mircea Eliade, afirma que a historiografia desempenha para o homem moderno o mesmo que a mitologia desempenhou para o primitivo. Nas palavras do autor:
“Durante milênios, o homem trabalhou ritualmente e pensou miticamente nas analogias entre o macrocosmo e o microcosmo. Era uma das possibilidades de se “abrir” para o Mundo e de participar da sacralidade do Cosmo. Desde a Renascença, quando se provou que o Universo era infinito, essa dimensão cósmica que o homem acrescentava ritualmente à sua existência nos é negada.

Seria normal que o homem moderno, caído sob o domínio do Tempo e obsedado por sua própria historicidade, procurasse “abrir-se” para o Mundo, adquirindo uma nova dimensão das profundezas temporais. Inconscientemente, ele se defende da pressão da História contemporânea através de uma anamnesis historiográfrica...”

O poder de sedução da Internet parece estar ligado às possibilidades ilimitadas que ela cria para o cidadão comum interferir no mundo sem sair de sua própria casa. A partir de seu computador pessoal, o internauta pode fundar um partido, iniciar uma campanha contra ou a favor de uma decisão política ou judicial, manter um blog, comentar uma matéria jornalística, reclamar diretamente aos Órgãos Públicos municipais, estaduais e federais em razão de suas ações ou omissões, apropriar-se de informações privilegiadas ou divulga-las para prejudicar um desafeto ou beneficiar uma causa que defende. Os mais ousados estão em condições de elaborar Projetos de Lei e envia-los à Assembléia Legislativa ou à Câmara dos Deputados e iniciar campanhas de mensagens para os Deputados apoiando suas propostas.

Ninguém duvida de que a Internet já mudou completamente as relações entre os cidadãos, entre estes e o Estado e principalmente entre os ocupantes de cargos públicos eletivos e os cidadãos que dizem representar.
Apesar de seus benefícios, a Internet tem causado desconforto numa categoria de pessoas: os especialistas. Desde o século XIX o Ocidente atribuiu um valor excessivo aos especialistas. Faculdades foram criadas para formá-los, leis foram aprovadas para regulamentar suas profissões e, principalmente, proibir o exercício das mesmas por leigos. OABs, Conselhos Federais e toda uma gama de instituições públicas ou quase públicas foram criadas para defender e proteger os especialistas.

Dentre todos os especialistas os que mais sofreram o impacto da Internet foram os jornalistas. Não são poucas as vozes que vociferam contra a proliferação de blogs, denunciam o mal jornalismo praticado na blogosfera ou lamentam o tempo em que os jornais eram vendidos em bancas e os jornalistas tinham o privilégio de definir o que era e o que não era notícia, bem como a ênfase a dar à mesma.

Na Internet todos somos leitores e jornalistas, mas alguns jornalistas querem que continuemos apenas leitores. Isto não é só infantil, é anacrônico. Assim como a historiografia desempenhou a partir da Renascença o mesmo papel que a mitologia na antiguidade, a Internet tem um papel mítico a desempenhar.

Através da Internet todas as habilidades podem ser exercitadas e, eventualmente, reconhecidas. Mesmo que não sejam desde logo reconhecidas, à medida que forem exercitadas as habilidades individuais para produzir textos (escritos, falados, iconográficos, fotográficos, televisivos e cinematográficos) e divulgá-los na Internet ou usá-los com finalidade política ou lúdica colaborará para o desenvolvimento da sociedade. Na Internet os acertos e os erros podem ser compartilhados, de maneira que tudo pode acabar virando estímulo ou reforço. Os artistas e os especialistas formados sob o signo da comunicação “on line” tendem a ser mais ágeis e adaptáveis que seus colegas do passado.

Qualquer um que tenha o mínimo conhecimento de mitologia não pode desconsiderar o papel relevante que a Internet já desempenha ou virá a desempenhar no desenvolvimento da humanidade. Por intermédio de um provedor gratuito e ao custo de uma ligação discada, o internauta está em condições de participar de movimentos virtuais globais ou transforma-los em realidades locais.

A criação de identidades e de convergência de propósitos através da Internet é uma realidade. Isto transforma a rede de computadores num centro de re-ligação entre indivíduo e sua comunidade de eleição. A re-ligação é uma experiência mística e muitas vezes bastante agradável. Mesmo que seja terrificante, auxilia no processo de amadurecimento individual. Nesse sentido, pode-se dizer que a Internet é mais do que um mercado, um fórum e uma biblioteca. Ela é mítica e mitilogizante.

O filósofo Arthur Schopenhauer tinha uma verdadeira aversão por especialistas. Considerava-os mercadores, pois “...sua ciência é um meio e não um fim.” (A arte de escrever, L&PM, 2005). Com alguma razão considerava que os diletantes estavam em condições de produzir algo digno de nota, porque “... só se dedicará a um assunto com toda seriedade alguém que esteja envolvido de modo imediato e que se ocupe dele com amor, com amore.” (idem).

Durante séculos somente as pessoas ricas ou protegidas das muito ricas puderam se dedicar a um assunto por diletantismo. Com a Internet o diletantismo está ao acesso de todos. Nesse sentido, a rede mundial é realmente revolucionária. Quanto mais cabeças pensarem e divulgarem idéias, maiores serão as probabilidades de que os verdadeiros gênios tenham sua genialidade aproveitada em benefício da humanidade.

Desde a antiguidade clássica milhões de pessoas criativas definharam amarguradas porque não puderam submeter suas idéias ao julgamento público. Agora que o público está ao acesso de todos alguns privilegiados acostumados a ser tratados como únicos produtores culturais se mostram incomodados. A blogosfera será impiedosa com seus críticos, ignorando-a.

Para compreender melhor este texto, retorne ao início. Assim, caso seja um especialista ou um leitor acostumado a dar crédito apenas aos especialistas, você poderá ignorar as afirmações de um inepto diletante. Caso contrário poderá considerar este texto uma modesta contribuição ao diletantismo virtual.




Fábio de Oliveira Ribeiro

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Amor à primeira vista.



Foi assim, um amor à primeira vista! Há quem não acredite nisso, mas existe ou existiu, pelo  menos nesta história!
Ela era Helena, uma bela moça que nasceu e sempre morou na cidade de São Paulo. Dona de um corpo muito bem feito, parecia que havia sido esculpido, era a perfeição, estatura média, cabelos castanhos claro, quase loiros, longos e lisos.Os olhos num tom verde escuro tal qual duas esmeraldas, boca bem definida com lábios carnudos e provocadores que se abriam num sorriso enigmático mostrando os dentes brancos e perfeitos.
Ele, Paulo, um rapaz simples que havia acabado de chegar do interior do Paraná. Logo despertou o interesse das garotas com o seu corpo musculoso, que fora moldado no trabalho árduo no campo!Ele tinha os cabelos pretos e encaracolados, pele morena curtida de sol, lábios bem definidos e um sorriso amável e cheio de ternura que combinava com olhos escuros e misteriosos.
Depois do primeiro momento que se conheceram não havia como separá-los. Estavam sempre de mãos dadas e olhos nos olhos. Afastaram-se dos amigos e tudo que interferisse naquele romance e começaram a viver um para o outro. Parece que tinham um único pensamento na cabeça, ela pensando nele, ele pensando nela. Era tão visível a necessidade de um estar com o outro, tanto, que os pais trataram de apressar o casamento antes que colocassem a carroça na frente dos burros, como dizia mãe de Helena.
Era inicio dos anos 40 do século XX, o mundo estava no começo da segunda grande guerra, no Brasil já se vivia intensamente esse clima após o bombardeio sobre as embarcações brasileiras no Oceano Atlântico.
Para o casal nada importava desde que um estivesse nos braços do outro. Helena era modista e costurava para as senhoras que viviam no bairro, Paulo só conhecia o serviço de agricultor e como não tinha profissão, começou a prestar pequenos serviços nas serralherias e marcenarias que existiam nas redondezas , talvez à procura de firmar-se na profissão
Logo no primeiro ano de casamento já tiveram um filho, mas o namoro do casal não foi abalado pela presença de outra pessoa, ao contrário , parecia que estavam tão enamorados quanto a primeira vez que se viram.
Os anos foram passando e a cada ano um novo filho. Já estavam no sexto ano de casamento e no quinto filho, quando numa noite fria de julho, uma garoa incessante que caia sobre a cidade, Paulo saiu de casa para comprar cigarros e fósforos.
Passou uma hora, passaram-se duas, três e nada dele voltar. Helena já apavorada e pensando no pior, avisou a família e começaram as buscas.
No bar onde ele havia ido, disseram que ele estivera lá, mas que após comprar os cigarros e os fósforos saiu normalmente, não o tinham mais visto por lá naquela noite. As buscas se estenderam a outros bares e localidades, casas de amigos, hospitais, delegacias, necrotério e nada!
As famílias do casal ajudavam no que podiam, tanto nas buscas, como no amparo a Helena e aos filhos.Passaram-se dias que formaram meses e meses que formaram anos.
Helena criava os filhos com o dinheiro que recebia das suas confecções e das aulas noturnas de corte e costura.Aos sábados à tarde também ministrava aulas de catecismo para as crianças que iriam fazer a primeira comunhão na comunidade onde morava.Os filhos foram crescendo e ela sempre fiel a espera do marido ou de uma noticia deste.Não se vestia de luto, mas andava sobriamente vestida e tinha um comportamento exemplar como mulher casada.Já não gostava mais que tocasse no assunto do desaparecimento do marido , pois com o passar dos anos , muitos pensamentos devem ter-lhe passado pela cabeça e o que se podia ver agora era uma mulher triste e magoada.
As pessoas comentavam que ele poderia ter sido preso como espião de guerra, outros diziam que o tinham encontrado na rua na companhia de outra mulher, alguns levantavam a hipótese dele ter sido morto e enterrado por um inimigo, mas quem?Aí , inventavam histórias do envolvimento dele com alguma mulher casada e que o marido os havia surpreendido e os matado .Lendas foram criadas em volta do desaparecimento do marido de Helena, mas a verdade é que ninguém sabia de fato o que lhe acontecera.
Passaram-se vinte e oito anos ,o Brasil vivia agora no regime de ditadura militar, era o ano de 1975 , os filhos de Helena haviam se casado e ela vivia sozinha na casa que fora morar com marido antes do desaparecimento dele.
Naquele mês de abril, os dias amanheciam frios e depois iam esquentando, uma típica manhã de outono.Helena tinha um vestido para entregar, e preparava-se para sair , quando ouviu baterem à porta.Abriu e deparou-se com um senhor meio calvo e de bigode que lhe sorriu sem dizer nada.Ela deu um passo para trás e depois de estudar a fisionomia da pessoa , pos a mão no peito e falou pausadamente:
_Paulo!
Sim, era seu marido, em carne e osso que voltava saindo de dentro dos seus mais lindos sonhos e terríveis pesadelos. Quanto ela havia esperado e sonhado com aquele momento!
Ele ficou parado do lado de fora , perto da porta, esperando uma reação dela que após recompor-se do susto mandou que ele entrasse.Não o abraçou e nem tocou nele, pois agora ele era um perfeito estranho, uma pessoa que ela nunca tinha visto, tanto na aparência como no comportamento.
Já dentro de casa ele olhou em volta como querendo reconhecer móveis e objetos , sentou-se e começou a chorar.
Neste momento Helena também deixou cair as lágrimas que estavam contidas desde que abrira a porta ,lágrimas de susto e emoção.Ele tentou abraçá-la ,perguntou dos filhos, mas ela permaneceu impassível,recuou e escondeu o rosto com as mãos.Passaram-se minutos e tudo o que faziam era chorar.Helena pegou um copo de água para si e outro para Paulo, beberam e olharam-se fixamente.Ela perguntou:
_O que aconteceu?
Pergunta que ficara martelando em seu cérebro durante vinte e oito anos !
Ele levou um tempo para responder , parecia que estava buscando uma maneira de começar o assunto.Baixou a cabeça e sem olhar para Helena foi falando:
_Naquela noite quando sai de casa pensei dar uma volta e fumar um cigarro e fui andando. Andei, andei, andei quase a noite inteira, queria distanciar-me daqui, desta vida, destes problemas, da responsabilidade de criar todos os nossos filhos, da falta de emprego, falta de alimentos em época de guerra, de ter que vê-la trabalhando , é só trabalhando e eu não podendo fazer nada para modificar a situação.Quando estava muito longe daqui, peguei uma carona com um caminhoneiro e fui para outra cidade, esperava arrumar melhor emprego e começar uma vida nova e voltar para buscá-los, mas tudo o que eu arrumava era mais miséria e abandono, fui vivendo pelas ruas como mendigo até que um senhor, dono de uma marcenaria, me empregou e me deixou morar num quartinho nos fundos da oficina.O que ganhava mal dava para minha sobrevivência, mas assim fui levando a vida e quando vi que haviam se passado alguns anos, não tive coragem de voltar.
Helena ouvia com olhos espantados e o coração aos pulos , foi sentindo um misto de raiva e pena que a prostrava e deixava sem ação.Todo seu ser sofria, e sofria mais do que no dia em que o marido sumira inesperadamente.Paulo continuou falando sobre tudo o que passara e como vivera nessas anos todo de ausência.
Depois de uma pausa, ele levantou-se e continuou:
Dizendo que sem coragem para voltar, ele começou a buscar a felicidade, àquela felicidade que ambos tinham quando se conheceram, que ele buscava as emoções de um novo amor , de uma nova paixão e que alucinadamente pensava achar em cada relacionamento seu com outras mulheres, porém, envelhecera sem nunca mais sentir por ninguém o que sentira por ela e nunca mais viveu dias tão bonitos e de delicada magia como no tempo em que se apaixonaram e foram namorados.Que por isso ele agora estava lá só para pedir  perdão pelo sofrimento que causou a ela e aos filhos e também para dizer que ela era o que de melhor havia acontecido na vida dele, e que não soube valorizá-la, que se ela mandasse, ele iria embora agora mesmo, sem nem sequer ver os filhos e netos, sumiria para sempre.
Helena pensou, e sua criação cristã falou mais alto, pediu a ele que voltasse no próximo domingo, pois ela iria conversar com os filhos.
Domingo todos foram almoçar em casa da mãe e preparados para conhecer o pai e ouvir suas explicações. Paulo chegou e abraçou a todos, não com saudades, mas como um estranho que acaba de conhecer novas pessoas. Antes que começassem a conversa Helena pediu para falar e disse:
_Todos aqui sentiram a falta de um pai, o pai de vocês estava ausente, eu fui pai e mãe, me digam agora se reconhecem neste homem o pai de vocês.
_Não
Foram unânimes!
Ela virou-se para o marido e disse:
_Veja que família linda você perdeu, a oportunidade de criar e ver crescer, estar presente no dia a dia deles, amá-los e protegê-los.Não guardo rancor porque quem mais perdeu nesta história foi você.Se teus filhos quiserem continuar a vê-lo, eles que o recebam em suas casas, porque aqui não te quero mais, volte para seus sonhos, corra atrás de momentos de paixão , eu já tenho a quem amar; minha família!
Assim dizendo pediu a todos que se servissem do almoço, pois aquela seria a primeira e última refeição em que todos estariam juntos.

Wanda Wenceslau

OBS.Esta é uma história verídica, só troquei o nome dos personagens!

domingo, 11 de outubro de 2009

O milagre


Dia 12 de outubro se comemora o dia de Nossa Senhora Aparecida padroeira do Brasil, portanto é feriado nacional.

Fiquei pensando em um milagre para contar aqui no blog , um milagre acontecido comigo ou com alguma pessoa conhecida .
Supomos sempre que milagre tem que ser uma coisa grandiosa, ser salva de uma doença incurável, voltar a andar depois de um acidente de carro,aparecer alguém para salvar-nos se estamos no afogando no mar, e outras coisas de super homem.
Não imaginamos quantos pequenos e grandes milagres já recebemos na vida.O fato de não termos uma doença incurável, já é o milagre.Não sofrermos nenhum acidente de carro que nos deixe inválidos , já é o milagre , não estarmos nos afogando no mar, já é um milagre também!A toda hora estamos recebendo graças divinas, pois o ser humano é frágil e constantemente exposto a tantos perigos da natureza e dos inventos da civilização.Quando acordamos pela manhã , estamos recebendo o milagre de não termos morrido durante a noite.Poucas vezes nos damos conta disso.Sempre estamos com preocupações minúsculas que se agigantam em nossas mentes.
Eu me lembro um dia ,quando eu era criança, na escola , precisando de uma nota alta em matemática, justo em matemática, que era uma matéria que eu gostava, mas eu tinha sido displicente e não estudei o suficiente..Aquela semana não fiz outra coisa que não estudar, peguei vários livros de exercícios e tentei resolver todos, e os que não consegui resolver fui buscar ajuda de professores e amigos.Minha meta era a nota máxima, coisa quase impossível, pois as vezes uma distração já nos tira meio ponto.Fiz uma promessa a Nossa Senhora Aparecida, que me fizesse conseguir tirar uma nota dez, senão eu teria que repetir o ano na escola.
No dia da prova fui confiante que não erraria nada , pois estaria protegida pela santa e isso me deu segurança.Tirei o dez, sai do sufoco, e nem me lembrava o que havia prometido a santa, mas a mim mesma eu prometi nunca mais deixar aquela situação acontecer.Agradeci a Nossa Senhora Aparecida e realmente acreditei ter sido ajudada por ela, tanto que até hoje não esqueci o milagre.Agora, com mais idade e conhecendo melhor a vida, acho que fui egoísta demais, porque a santa deveria ter coisas mais importantes para fazer do que ajudar uma garota a passar de ano,acho que o milagre mesmo eu já tinha recebido, pois tinha saúde e inteligência para correr atrás do prejuízo.
Nestes feriados muitas pessoas irão até a cidade de Aparecida do Norte, na basílica, agradecer por milagres recebidos.Pessoas que conseguiram casas próprias, que conseguiram curar-se de males do corpo e um sem número de pedidos que seria impossível citar aqui.Eu diria que o maior milagre já está no fato deles poderem ir a basílica.
Os milagres estão acontecendo em nossas vidas todos os dias, você não vai ouvir sinos tocarem para anunciar o milagre, mas seu coração vai se sentir feliz e agradecido por tudo que te acontece de bom, e você vai reconhecer que um milagre acabou de acontecer.Você está lendo! Agradeça o milagre de poder enxergar!Quantas pessoas neste momento estão pedindo esse milagre? Você já o conseguiu!

Wanda Wemceslau

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Com o tempo.




Tenho aprendido com o tempo que a felicidade vibra na frequência das coisas mais simples. Que o que amacia a vida, acende o riso, convida a alma pra brincar, são essas imensas coisas pequeninas bordadas com fios de luz no tecido áspero do cotidiano. Como o toque bom do sol quando pousa na pele. A solidão que é encontro. O café da manhã com pão quentinho e sonho compartilhado. A lua quando o olhar é grande. A doçura contente de um cafuné sem pressa. O trabalho que nos erotiza. Os instantes em que repousamos os olhos em olhos amados. O poema que parece que fomos nós que escrevemos. A força da areia molhada sob os pés descalços. O sono relaxado que põe tudo pra dormir. A presença da intimidade legítima. A música que nos faz subir de oitava. A delicadeza desenhada de improviso. O banho bom que reinventa o corpo. O cheiro de terra. O cheiro de chuva. O cheiro do tempero do feijão da infância. O cheiro de quem se gosta. O acorde daquela risada que acorda tudo na gente. Essas coisas. Outras coisas. Todas, simples assim.Tenho aprendido com o tempo que a mediocridade é um pântano habitado por medos famintos, ávidos por devorar o brilho dos olhos e a singularidade da alma. Que grande parte daquilo em que juramos acreditar pode ser somente crença alheia que a gente não passou a limpo. Que pode haver algum conforto no acordo tácito da hipocrisia, mas ele não faz a vida cantar. Que se não tivermos um olhar atento e generoso para os nossos sentimentos, podemos passar uma jornada inteira sem entrar em contato com o que realmente nos importa. Que aquilo que, de fato, nos importa, pode não importar a mais ninguém e isso não tem importância alguma. Que enquanto não nos conhecermos pelo menos um pouquinho, rabiscaremos cadernos e cadernos sem escrever coisa alguma que tenha significado para nós.Tenho aprendido com o tempo que quando julgamos falamos mais de nós do que do outro. Que a maledicência acontece quando o coração está com mau hálito. Que o respeito é virtude das almas elegantes. Que a empatia nasce do contato íntimo com as nuances da nossa própria humanidade. Que entre o que o outro diz e o que ouvimos existem pontes ou abismos, construídos ou cavados pela história que é dele e pela história que é nossa. Que o egoísmo fala quando o medo abafa a voz do amor. Que a carência se revela quando a autoestima está machucada. Que a culpa é um veneno corrosivo que geralmente as pessoas não gostam de ingerir sozinhas. Que a sala de aula é a experiência particular e intransferível de cada um.Tenho aprendido com o tempo coisas que somente com o tempo a gente começa a aprender. Que o encontro amoroso, para ser saudável, não deve implicar subtração: deve ser soma. Que há que se ter metas claras, mas também a sabedoria de não se transformar a vida numa sala de espera. Que a espontaneidade e a admiração são os adubos naturais que fazem as relações florescerem. Que olhar para o nosso medo, conversar com ele, enchê-lo de cuidado amoroso quando ele nos incomoda mais, levá-lo para passear e pegar sol, é um caminho bacana para evitar que ele nos contraia a alma.Tenho aprendido que se nos olharmos mais nos olhos uns dos outros do que temos feito, talvez possamos nos compreender melhor, sem precisar de muitas palavras. Que uma coisa vale para todo mundo: apesar do que os gestos às vezes possam aparentar dizer, cada pessoa, com mais ou menos embaraço, carrega consigo um profundo anseio de amor. E, possivelmente, andará em círculo, cruzará desertos, experimentará fomes, elegerá algozes, posará de vítima para várias fotos, pulará de uma ilusão a outra, brincará de esconde-esconde com a vida, até descobrir onde o tempo todo ele está.

Ana Jácomo

sábado, 3 de outubro de 2009

Amigos loucos e sérios


(Oscar Wilde)

"Meus amigos são todos assim: metade loucura, outra metade santidade.
Escolho-os não pela pele, mas pela pupila,
que tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e aguentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Louco que senta e espera a chegada da lua cheia.
Quero-os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela cara lavada e pela alma exposta.
Não quero só o ombro ou o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade palermice, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Pena, não tenho nem de mim mesmo, e risada, só ofereço ao acaso.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem,
mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos, nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice.
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto,
e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou, pois vendo-os loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que a normalidade é uma ilusão imbecil e estéril."



Oscar Fingal O'Flahertie Wills Wilde (1854 - 1900)

Foi um escritor irlandês que conseguiu escrever para todos as formas de expressão em palavras, embora tenha sido menos conhecido em algumas delas. Único romance, O Retrato de Dorian Gray (trata da arte, da vaidade e das manipulações humanas); várias novelas (destaque para O Fantasma de Canterville); contos infantis (O Filho da Estrela, Ligações Externas); dramas teatrais e poesias (Rosa Mystica, Flores de Ouro).

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Não vou viver para sempre




ENVELHECENDO OU APENAS SABENDO VIVER

Algum tempo atrás, quando completei 50 anos, sem nenhuma tristeza, por ter alcançado esta idade, eu me perguntei, na condição de homem, como seria para a mulher completar 50 ou mais anos e quais seriam os sentimentos e emoções que ela viveria e sentiria face a esta nova realidade. Busquei colocar-me no seu lugar, tentando me sentir dentro dela, com uma certa idade e sendo chamada de velha ou, eufemisticamente, de idosa mesmo ciente de que, como homem eu não me sentiria assim, pois sempre vi a chamada velhice como um presente.

E sempre fui e sou o que sempre procurei ser ao longo de todos os meus anos. Procurei, no meu artigo, retratar uma situação em que uma jovem me perguntava como eu me sentia sobre ser velha, idosa ou pertencente à chamada " terceira idade". E é claro que levei um susto, porque eu não me via nem me vejo, diante dela ou de qualquer outra jovem, como uma velha. Mas ao notar a minha reação, a garota ficou embaraçada, mesmo que eu explicasse que a sua era uma pergunta interessante e que eu pensaria a respeito, para depois voltar a falar com ela. Ora, amigas e amigos, a velhice, se a sabemos ver e entender, é um presente.

E eu sou, agora, provavelmente pela primeira vez na vida, a pessoa que sempre quis ser. Oh, não meu corpo! Fico incrédula muitas vezes ao me examinar, ver as rugas, a flacidez da pele, os pneus rodeando o meu abdome, através das grossas lentes dos meus óculos, o traseiro rotundo e os seios já caíndo. E constantemente examino essa pessoa velha que vive em meu espelho (e que se parece demais com minha mãe), mas não sofro muito com isso.

Sim, meu espelho mostra o retrato de um corpo cansado, abdômen redondo, pele flácida, com estrias e celulite. Mas que guarda e resguarda uma alma jovem, animada, realizada e cheia de sonhos ainda. E eu não trocaria nada do que tenho, o carinho de minha família, amigos surpreendentes, trabalho, saúde, estabilidade, equilíbrio, cabelos brancos, experiências e a minha vida maravilhosa por uma barriga mais lisa, um corpo perfeitinho e um bumbum mais durinho. Sim, enquanto fui envelhecendo, tornei-me mais paciente, tolerante e mais condescendente comigo mesma.

Menos crítica comigo e com as minhas atitudes. E tornei-me mais amiga de mim mesma. Mais solidária, menos egoísta, mais fraterna, mais simples, menos encucada e complexada. E não mas me preocupo com a blusa fora de moda, com a empregada atrasada, com o filho preguiçoso. Nem com o marido desligado ou com os netos precoces e incomodativos. Não fico me censurando se quero comer um doce ou um bolinho de bacalhau a mais, ou se tenho preguiça de arrumar minha cama. Ou se compro um anãozinho ou um gnomo que não necessito, mas que ficou tão lindo no meu jardim ou na cabeceira de minha cama. Eu conquistei o direito de matar as minhas vontades, de ser bagunceira e de ser exótica e extravagante. Passo meses sem abrir um crediário mas todo sábado vou ao salão.

E estou linda, estou bem, usando um perfume bom e cheiroso! Dou presentes a quem quero e ajudo quem precisa. Posso ter o que eu quiser, sem ser obcecada nem compulsiva. E quem vai me criticar porque faço tricô ao invés de ler um livro? Quem vai se preocupar se prefiro ver novelas a um filme? Se assisto a um programa de variedades e não um documentário cheio de catástrofes? Quem vai me censurar se resolvo ficar lendo ou jogando paciência no computador até às 4 da manhã para depois só acordar a hora que quero? Sim, infelizmente, ainda lembro de amigos que perdi muito jovens.

E quantos filhos de amigos meus, não tiveram o prazer de ver o seu rosto envelhecer? Nem de ter filhos ou de vê-los crescer? De fato, vi muitos amigos queridos deixarem este mundo cedo demais, antes de compreenderem a grande liberdade que vem com e através do envelhecimento. Liberdade que me propiciou e me faz dançar ao som daqueles sucessos maravilhosos das décadas de 50, 60, 70. E se, de repente, chorar lembrando de alguma paixão daquela época, posso chorar mesmo! E andar pela praia em um maiô cafona, estampado, excessivamente esticado sobre o meu corpo decadente, além de mergulhar nas ondas dando pulinhos se quiser, apesar dos olhares penalizados dos outros.

Sabendo que eles, também, se conseguirem, envelhecerão. No entanto, apesar de tudo isso, busco e quero esquecer alguns fatos, também... Mas é certo que preciso lembrar de muitos outros por que tenho mil histórias para contar… E mesmo sabendo que ando esquecendo muita coisa, sei que esquecer faz bem e é bom para se poder perdoar. Sim, pensando bem, há muitos fatos na vida que merecem ser esquecidos. Mas das coisas importantes, eu me recordo freqüentemente. Certo, ao longo dos anos, o meu coração sofreu muito mas também se revigorou. Perdi amores, amigos, parentes, animais, flores, roupas, livros e até jóias. Mas como não sofrer quando se perde um grande amor, ou quando uma criança sofre, ou quando um animal de estimação é atropelado por um carro? Sei, em contrapartida, que corações partidos são os que nos dão a força, a compreensão e nos ensinam a compaixão. Um coração que nunca sofreu, e é imaculado e estéril, nunca conhecerá a alegria de ser forte, apesar de imperfeito. Em troca de viver tudo isso ganhei coragem, força, garra e vontade de recuperar tudo…

E estou feliz por viver e envelhecer neste milênio. Sou uma testemunha ocular de dois séculos, o XX e o XXI, estimulantes, desafiadores e profícuos. Sou abençoada por ter vivido o suficiente para ver meu cabelo embranquecer e ainda querer tingi-los a meu bel prazer. E por ter os risos da juventude e da maturidade gravados para sempre em sulcos profundos no meu rosto. Ao contrário de muitos que nunca riram, e que morreram antes que seus cabelos pudessem ficar prateados. Descobri, também, que conforme envelhecemos, fica mais fácil ser positivo. E ligar menos para o que os outros pensam. Eu não me questiono mais sobre nada disso. Conquistei o direito de estar errada e não ter que dar explicações. E por não querer andar calçada, andei e andarei descalça. Andando de vestido por não ter calças. Passando frio por não ter nem querer agasalho. Escrevendo em papel de embrulho por não ter cadernos a mão quando preciso. Sim, eu conheci o rádio ainda criança. E as novidades como usar batom, esmalte e xampu me seduziam.

Na época era tudo o que uma adolescente queria. Estudei precariamente mas sempre me esforcei. E fui conquistando os meus espaços, a minha independência, a minha identidade e aprendendo a gostar da pessoa que me tornei. E sei que não vou viver para sempre. Mas não viverei para lamentar, nem invejar. Nem desperdiçar o que tive, tenho e ainda terei. O futuro ainda me instiga e me fascina. E enquanto eu o espero quero ser apenas eu. Comer sem remorsos, caminhar sem dores. Dormir sem medos e fazer o que eu gosto, Estar com quem amo, filhos, companheiro, amigos, netos e afins. Assim, respondendo à pergunta daquela jovem graciosa, fruto de minha imaginação como escritor, posso afirmar, por ela, mesmo sendo Homem: Eu gosto de ser velha , ou idosa, como preferirem. Libertei-me! Gosto da pessoa que me tornei e que sou. Ciente que não vou viver para sempre.

Mas que enquanto estiver por aqui, não desperdiçarei o meu tempo, lamentando o que poderia ter sido e não foi. Ou me preocupando, ao ponto de não viver o melhor da vida, pensando no que virá ou poderá vir. E comerei sobremesa todos os dias, repetindo-a, se assim me aprouver. Pensando e acreditando, lá dentro de mim, que nunca me sentirei só. Mesmo sabedor que, para muitas pessoas, a progressão na idade é sinônimo de decadência física e mental. De uma certa anulação do indivíduo, e de uma quase desistência de fazer parte integrante e atuante na dinâmica da vida familiar e social. Sim, não posso desconhecer que para muitos ela traz um sinônimo de inutilidade ou uma interdição de alguns sonhos e desejos, uma abdicação da dignidade e da auto estima de quem mesmo estando vivo, corre o perigo de torna-se o espectro de si mesmo. Mas para mim, a velhice é exatamente, o contrário, e é como a encara a jovem velhinha, que eu criei no texto: uma festa, uma celebração da vida e um ato de agradecimento a Deus por ter conseguido chegar até onde já cheguei. Chegar tão bem e tão saudável, varando as décadas, sem deixar jamais que o homem jovem que em mim existe se fosse embora.

Sim, sou um homem especial, amigo, receptivo e carinhoso, e se amizades antigas teimam e teimarem em partir antes de mim, outras novas, assim como você, de mim se aproximarão para buscar o que terei sempre para dar enquanto viver: experiência, carinho, amizade e muito amor.

Autor: Roberto Romanelli Maia

Hoje no Brasil se comemora o Dia do Idoso -1º de outubro