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segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Não escapas mais!






Mas vejam só quem está voltando! Arrependeu-se e voltou! Te maltrataram por ai, vejo que estás com o corpo e alma ferida.Olhar baixo, envergonhado.
Buscavas o que? Pensavas que te dariam o tratamento e o carinho que te dou? Viu como é difícil a vida lá fora?Achavas que outra esperaria por você e te receberia numa boa?Deves ter passado frio e fome.Você está com um aspecto horrível! E essa ferida? Está feia, vamos ter que cura-la.
Com certeza você sentiu minha falta.Me chamou e eu não te escutei.Procurou  o caminho de volta sabendo que aqui terias mordomias e mimos diversos! Seu safado! Eu deveria fechar a porta e não te deixar entrar, mas sei que sentiria tua falta, assim como senti desde que você sumiu!
Saiu de mansinho na sexta-feira e só agora retorna com essa cara mais deslavada! Procurei você por toda parte.Já estava até pensando em colocar anuncio no jornal.
Veja se toma jeito e não repitas mais isso! No mínimo devias estar atrás de uma namorada.Pensas que não sei , seu malandro? Pensando bem, acho que vou levar-te ao veterinário aproveito para pedir que te esterilize! Esses felinos! Gatos são independentes demais!
_Michel! Volte! Se você sair de novo vou entregá-lo a Sociedade Protetora dos Animais!

Que droga! Semana passada fui viajar, fiquei quatro dias fora e o gato esta semana sumiu só para me fazer birra! 


Wanda Wenceslau

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Escutatória



ESCUTATÓRIA
Rubem Alves
Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória.Todo mundo quer aprender a falar, ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória, mas acho que ninguém vai se matricular.
Escutar é complicado e sutil.Diz Alberto Caeiro que "não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma".
Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.
Parafraseio o Alberto Caeiro:"Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma".
Daí a dificuldade: a gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.
Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos...
Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64.
Contou-me de sua experiência com os índios: reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio.(Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, [...]. Abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as idéias estranhas.). Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio.
Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que ele julgava essenciais. São-me estranhos. É preciso tempo para entender o que o outro falou.
Se eu falar logo a seguir, são duas as possibilidades. Primeira: "Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado".
Segunda: "Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou". Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada.
O longo silêncio quer dizer: "Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou". E assim vai a reunião.
Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos.
E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir.
Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras.
A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar.
Para mim, Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também.
Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Antes do dia partir




É pieguice, mas antes de dormir, quando o dia que passou está dando o prefixo e saindo do ar, eu penso: o que valeu a pena hoje? Sempre tem alguma coisa. Uma proposta de trabalho. Um telefonema. Um filme. Um corte de cabelo que deu certo. Até uma briga pode ter sido útil, caso tenha iluminado o que andava escuro dentro da gente.

Já para algumas pessoas, ganhar o dia é ganhar mesmo: ganhar um aumento, ganhar na loteria, ganhar um pedido de casamento, ganhar uma licitação, ganhar uma partida. Mas para quem valoriza apenas as megavitórias, sobram centenas de outros dias em que, aparentemente, nada acontece, e geralmente são essas pessoas que vivem dizendo que a vida não é boa, e seguem cultivando sua angústia existencial com carinho e uísque, mesmo já tendo seu superapartamento, sua bela esposa, seu carro do ano e um salário aditivado.

Nas últimas semanas, meus dias foram salvos por detalhes. Uma segunda-feira valeu por um programa de rádio que fez um tributo aos Beatles e que me arrepiou, me transportou para uma época legal da vida, me fez querer dividir aquele momento com pessoas que são importantes pra mim. Na terça, meu dia não foi em vão porque uma pessoa que amo muito recebeu um diagnóstico positivo de uma doença que poderia ser mais séria. Na quarta, o dia foi ganho porque o aluno de uma escola me pediu para tirar uma foto com ele. Na quinta, uma amiga que eu não via há meses ligou me convidando para almoçar. Na sexta, o dia não partiu inutilmente, só por causa de um cachorro-quente. E assim correm os dias, presenteando a gente com uma música, um crepúsculo, um instante especial que acaba compensando 24 horas banais.

Claro que tem dias que não servem pra nada, dias em que ninguém nos surpreende, o trabalho não rende e as horas se arrastam melancólicas, sem falar naqueles dias em que tudo dá errado: batemos o carro, perdemos um cliente e o encontro da noite é desmarcado. Pois estou pra dizer que até a tristeza pode tornar um dia especial, só que não ficaremos sabendo disso na hora, e sim lá adiante, naquele lugar chamado futuro, onde tudo se justifica. É muita condescendência com o cotidiano, eu sei, mas não deixar o dia de hoje partir inutilmente é o único meio de a gente aguardar com entusiasmo o dia de amanhã…

Martha Medeiros

sábado, 7 de novembro de 2009

Então é Natal!



Fui ao supermercado semana passada e já tinham várias renas de pelúcia para pendurar na porta, ou seja, já é quase Natal oficialmente então posso começar a leva de posts sobre traumas de infância, Papai Noel e presentes. Sabe, eu tenho uma certa cisma com datas comemorativas como dia dos pais, das mães, Natal e afins, qualquer data que carregue uma certa obrigatoriedade de cumprir um cronograma e protocolo.
Acabo confraternizando com  as pessoas para seguir o protocolo,para agir socialmente e principalmente para não ser a estraga prazeres.
__Mas como você não gosta de Natal, pessoa sem coração! - alguém mais exaltado grita!
__Calma meu filho, eu já vou explicar, deixa eu divagar um pouco antes.
Quando era criança (faz muito tempo, tá?) era bem legal, não  tinha árvore de Natal, não tinha ceia, só almoço na casa da avó, tinha presente que a mãe ficava pagando as prestações um ano antes.Uma grande mesa para uma grande família. Uma comilança  e uma mistura de "experimenta um pouquinho disto" que depois mandava metade dos convivas para  disputar o sanitário! Nessas datas come-se três vezes mais do que comemos habitualmente.
 À tarde depois do almoço todas as crianças  já tinham cansado dos seus respectivos brinquedos e queriam o do outro.
Crescemos, casamos e fomos mudando a maneira de comemorar o Natal.
O Natal de meus filhos já começava  com a preocupação de conseguir comprar o presente  que todas as crianças queriam, aquele que era anunciado de minuto em minuto na televisão, é capitalismo, fazer o que?. Era uma briga pra se montar a árvore! Ninguém queria cozinhar (como assim, não passo o Natal sem meu salpicão de frango defumado), meu pai já estava ficando velhinho e queria comer a ceia as  seis horas da tarde, minha mãe num ânimo contagiante sempre escolhia esse dia para querer ir cumprimentar todas as vizinhas, por que não ia um dia antes?
As crianças espalhando papel de presentes e brinquedos pela casa toda.As mulheres mais velhas(por que as mais velhas? e não as mais novas?), cansadas e com os dedos queimados, só esperam a hora de tudo terminar para lavar a louça e colocar tudo em ordem e poder ir dormir para descansar o corpo todo dolorido.
Na verdade , acho esse negócio de confraternização de Natal, uma chatice!
Fulano briga o ano inteiro, fala mal do tio, reclama da prima e nesse dia todos resolvem se reunir e serem fofos, porque o espírito de Natal quer. Me poupa gente, não é o cúmulo da hipocrisia escolher apenas um dia do ano para ser uma boa pessoa? A gente não deveria tentar ser uma pessoa melhor a cada dia do ano? Escolher uma época específica para isso me parece deveras suspeito.
E os pobres? Só vão comer nesse dia? Sim, porque nessa época se distribuem cestas de alimentos e todo mundo se torna bonzinho e caridoso, será que é medo do castigo que virá do aniversariante?
Natal, para quem é cristão  mesmo e quer comemorar o aniversário de Jesus Cristo, deveria querer, pelo menos , que o aniversariante estivesse presente, isto é, elevar seu pensamento à Jesus, erguer a taça e dizer:"Feliz aniversário, obrigado por teres existido e teres vindo falar-nos sobre o teu pai"
Vamos combinar uma coisa?Não seja bonzinho só no Natal! Seja quem você é! Faça o que você sempre faz quando não é Natal!Continue não gostando das pessoas que você não gosta.Não saia por ai dando presente a todo mundo e depois ficar até o outro Natal pagando a prestação.O único que deve ganhar presente é Jesus Cristo, e esse, você presenteia todo dia com a sua fé!Ou não?
Agora, se você está só a fim da festa para entornar o caneco e encher a pança, então, seja bem vindo ao clube!

Wanda Wenceslau

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Romeu e Julieta em palco de cemitério






Na tarde tranqüila do domingo gaúcho, um grupo de moças resolveu aceitar o convite que fez a mais irriquieta da turma;
- Vamos dar um passeio até o cemitério?
Marlene, Dany, Zilá, Silvia, Teresinha e Diná, todas residentes nas proximidades do Hospital de Caridade, em Cachoeira do Sul, ao fazerem a combinação, estavam longe de pensar que, momentos depois, quando em jovial bulício paravam frente às sepulturas, comentando a mocidade ou a beleza dos mortos cujas fotografias apareciam nas lousas, ouviriam uma voz sumida, parece que partida das profundezas da terra, transmitindo um apelo patético:
- Tirem-me daqui! Quero água!
As moças empalideceram. Olharam-se estarrecidas e, em questão de segundos, descambavam cemitério afora, olhos esbugalhados de pavor. No portão, encontraram com João Picolotto, pedreiro da necrópole e contaram, com voz entrecortada, o que tinham ouvido. Mais adiante, defronte ao hospital, o Advogado Edyr Lima também era informado do assunto. Em poucos minutos, auxiliados pelos enfermeiros Alberto José e Altamiro Ferreira, o pedreiro e o advogado localizavam a procedência do apêlo. Uma jovem suja e esquálida jazia sobre um túmulo, deitada em trapos, numa imundície e fraqueza de causarem pena.
Enquanto alguns a retiravam, em maca, ela continuava em seu apelo angustioso:
__Quero água! Quero água!
Alguém mais expedito alcançou-lhe uma garrafa cheia do  líquido que ela implorava. A desconhecida bebeu bastante e, em seguida, deitou a vomitar, caindo em total prostração. A notícia, em seguida, ganhou as ruas da Capital do Arroz. Chegou até um clube da cidade, onde o pessoal se entregava a um inocente jogo de roleta, os números substituídos por figuras de animais. Um médico da roda, convidado a ir ao cemitério , negou-se fazendo “blague”:
- Não vou porque não se trata de cliente meu. Os que mandei para lá, tenho certeza, mandei bem mortos.
A descoberta naquele estado, da jovem Vicentina Dorneles, com 18 anos de idade, natural do distrito de Capané, tornava Cachoeira do Sul o palco do mais impressionante e estranho romance de amor. Desaparecida havia 17 meses, em companhia do namorado, João de Oliveira Simões Pires, também com a mesma idade, a jovem dera à luz no mato, completamente sem assistência; e oito meses depois da “delivrance” ainda permanecia como um bicho, escondida no pequeno terraço formado pelo teto de um jazigo. Ali sofreu fome e frio, agüentou as chuvas e geadas do inclemente inverno dos pampas. Julieta caipira, viveu horas de fome, sede e pavor em cenário de cemitério, apaixonada por sua encarnação de Romeu, filho de um cabo da milícia estadual e de  uma presidiária que assassinou o primeiro marido.
Vicentina, cujo comportamento anterior não era dos melhores, é filha de um curandeiro, agregado de uma fazenda, homem que goza de prestígio como parteiro entre as gestantes daquele ermo. Acostumada ao trabalho do pai, não lhe foi difícil amarrar com um trapo o umbigo da criança, cortá-lo com uma faquinha que possuía e ficar à espera de João para que este executasse o prometido: deixar a criança na casa do Sr. João Pivetta, residente na Rua Moron, onde a pequenina foi encontrada sob um telheiro guardada por Tupi, o cão da casa, que choramingava ao lado do pequeno ser.
O encontro da menina, que posteriormente foi batizada com o sugestivo nome de Maria Aparecida, agitou a população de Cachoeira do Sul. A pequenina perdera muito sangue pelo orifício umbilical. Levada ao Hospital de Caridade, esteve muitos dias à morte. Salva pela dedicação dos médicos e das freiras, foi entregue pelo Juiz de Menores ao Sr. Jair Bittencourt, garçom de um estabelecimento comercial da cidade; sua esposa, D. Júlia, explicando os motivos que levaram o casal, cuja situação financeira não era das melhores e que já tem três filhos, a adotar a menina, disse muito comovente:
- Nossas crianças já estão crescidas. E, depois, ela não era tão doente, a pobrezinha...
O exílio voluntário dos jovens amantes teve início há 17 meses, quando o físico de Vicentina começou a mostrar o estado de gravidez em que se encontrava. Alegando que não queria permanecer no emprego, que não desejava ser vista na cidade, que os homens faziam gracejos a respeito de seu estado, a jovem foi para as barrancas do Rio Jacuí, onde, em companhia do namorado, passou a viver no mato. Quinze dias depois, João regressou à cidade e todas as noites voltava ao mato onde dormia numa furna com a companheira. Após nascer-lhe o filho, assustado com a revolta da opinião popular pela maneira como eles se livraram do inocente, aconselhou Vicentina a permanecer escondida. Disse-lhe que toda a cidade procurava a mãe desnaturada, que se ela reaparecesse poderiam suspeitar dela, já que fora vista, anteriormente, em estado de gravidez. E desta forma, o exílio voluntário de Vicentina prolongou-se e com a chegada do inverno o bambual onde viviam tornou-se extremamente úmido.
O rapaz, que procurava desesperadamente por emprego,  conseguiu com o zelador do cemitério a empreitada da pintura de alguns jazigos. Neste trabalho, descobriu o pequeno terraço, no alto do túmulo do finado João Carlos Costa. Aconselhou Vicentina a mudar-se para lá. Durante a noite dormiam juntos. De dia antes que o cemitério fosse aberto, desciam para o mato próximo, usando a cruz do jazigo vizinho como escada. Degradavam-se cada dia mais, não se importando, depois de terem vivido tanto tempo no mato e no alto do jazigo, em dormir, quando chovia ou esfriava muito, dentro de um túmulo próximo.
O pai de João, entretanto, sargento reformado da Brigada Militar, protestou contra as despesas que o filho fazia em sua conta de armazém. Cortou o crédito do rapaz, impossibilitando-o de continuar comprando alimentos para Vicentina. Quando arrumava uns trocados, João levava frutas e restos de comida para sua lúgubre morada. Durante a noite, alumiavam o ambiente com cotos de vela das sepulturas. Tinham como moringa um vaso de vidro também retirado de um túmulo. Eis, entretanto, qua a parca alimentação começa a abater as fôrças de Vicentina, já bastante debilitada pelo parto. O inverno caiu de rijo e ela não pôde mais se locomover. Passou a permanecer dia e noite sobre o teto da sepultura. Impossibilitada de descer para a capelinha onde são enterrados os sacerdotes falecidos da paróquia, Vicentina cobria o rosto com um trapo e assim enfrentava a chuva e o frio. Uma anciã, que da janela do hospital próximo via luz e movimento sobre o túmulo, narrou ao médico que algo de estranho ocorria no cemitério. Considerando a idade da paciente, o facultativo vaticinou:
__São coisas da velhice!
Quando Vicentina foi localizada, já fazia uma semana que não comia. Havia oito dias, João lhe levara meia dúzia de bananas e algumas laranjas. Nem subiu. Assobiou e jogou as frutas para a jovem. Regressou logo para os braços de uma gorda matrona, cujo quarto, cuja cama e cujo carinho eram muito mais atraentes que sua fria, tétrica e macabra última moradia.
Um dia antes de ser descoberta, Vicentina ouviu passos de uma freira que foi rezar no túmulo dos padres. Pediu que a tirassem dali e lhe dessem água, da mesma forma que no dia seguinte pediria para as jovens. A irmã afirma que ouviu o apêlo e procurou pela dona da voz. A jovem, entretanto, diz que sentiu que alguém, com passos apressados, rumava em direção à porta do cemitério.
Certa tarde - conta Vicentina - quando era maior sua fome e mais cruel sua sede, ouviu os passos que sabia serem do zelador. O homem parou num túmulo ao lado, onde depositou uma lata de água. Esperou que ele se afastasse um pouco e içou a lata com grande dificuldade. O zelador, hoje, confirma a história e diz que só agora encontrou explicação para o misteriosos desaparecimento de sua lata de carregra água. O único cuidado da infeliz era não ser vista por ninguém, temerosa da prisão onde ela e João pagariam o crime de ter enjeitado o filho recém-nascido. Protegida por um pequeno muro, que não chega a ter meio metro de altura,  permanecia deitada o dia inteiro. E assim ficou pelo espaço de sete meses até que, febril e quase inconsciente, ouvindo as vozes das môças, implorou por socorro.
Ao ser retirada de sua tétrica reclusão, Vicentina pesava apenas 28 quilos. Cabelos longos e emaranhados, coberta de andrajos, unhas enormes, era a figura perfeita da miséria. Uma freira afirmou que jamais encontrara, em toda a sua longa prática de hospital, uma criatura tão suja e tão fraca. E enquanto durava o suplício de Vicentina, não era menor o sofrimento de João. Isto ele confessa com a simplicidade dos ignorantes, na carta que, do fundo do cárcere, escreveu ao Delegado Ruy Weber Dias. “Eu passava dia e noite pensando: o que vou  fazer com aquela mulher?”
Fruto do meio em que foi criado, as boas intenções do rapaz (se é que podem ser assim classificadas) ressaltam no fato de ele ter colocado a filhinha na casa de uma família que sabia gostar de crianças. Podia ter jogado a pequerrucha no rio, podia ter assassinado a mulher e enterrar o cadáver no mato. Naõ narrou seu drama ao pai, porque este nem a pensão para dormir lhe pagava mais. Da autoridade, só conhecia o direito de castigar. Temia ser preso pela sedução da namorada e pelo abandono da filha. Habituado com a liberdade, pois freqüentava o “bas-fond” desde os 15 anos, reagiu à prisão quando um cabo da Fôrça Estadual foi buscá-lo em casa, após a descoberta de Vicentina. Tudo isso foi reconhecido pelo íntegro Juiz de Menores de Cachoeira do Sul, Dr. Arthur Prates Picoli, que determinou a libertação do rapaz.
Cena profundamente tocante, à margem do caso, foi proporcionada pelo encontro de Vicentina com a filhinha, atualmente com sete meses de idade. Conduzida pela reportagem de “O Cruzeiro” e pelo correspondente do “Diário de Notícias”, de Porto Alegre, Maria Aparecida entrou no quarto do hospital onde sua infeliz mãe se recupera. Vicentina tomou a criança nos braços, olhou-a ternamente e beijou-a com carinho. A seu lado, Dona Júlia, a mãe de criação, temerosa de perder a menina, era a mais emocionada.
- Nós gostamos muito dela - explicava arquejante para Vicentina. - Ela é muito boazinha. Dá muita despesa. Come duas latas de leite em pó por semana.
A pequena ajeitou-se no regaço materno e caiu em profundo sono.





 História verídica, acontecida no começo do século XX no Rio Grande do Sul-Brasil