xxxxxxx

******

domingo, 31 de janeiro de 2010

Férias



Passei estes últimos dez dias em Itanhaém, uma cidade litorânea do Estado de São Paulo. Descrever esse paraíso nunca seria o bastante. Então resolvi mostrá-lo em vídeo. 
Itanhaém é a segunda mais antiga cidade do Brasil. Sua fauna e sua flora são encantadoras. 
Foi muito divertido estar com pessoas que amo e num lugar tão agradável.
Apreciem a paisagem!

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

anos rebeldes






Hoje, se quiser, se puder, se souber, me fala de você. Da essência vestida com essa roupa de gente com a qual você se apresenta. Fala dos seus amores, tanto faz se estão perto do seu corpo ou somente do seu coração. Fala sobre as coisas que costumam fazer você sintonizar a frequência do seu riso mais gostoso. Fala sobre os sonhos que mantêm o frescor, por mais antigos que sejam. Fala a partir daquilo em você que não desaprendeu o caminho das delícias. Do pedaço de doçura que não foi maculado. Da porção amorosa que saiu ilesa à própria indelicadeza e à alheia. A partir daquilo em você que continuou a acreditar na ternura, a se encantar e a se desprevenir, apesar de tantos apesares. Conta sobre as receitas que lhe dão água na boca. Sobre o que gosta de fazer para se divertir. Conta se você reza antes de adormecer.

Hoje, me fala de você. Dos momentos em que a vida lhe doeu tanto que você achou que não iria aguentar. Fala das músicas que compõem a sua trilha sonora. Dos poemas que você poderia ter escrito, de tanto que traduzem a sua alma. Senta perto de mim e mesmo que estejamos rodeados por buzinas, gente apressada, perigos iminentes, faz de conta que a gente está conversando no quintal de casa, descascando uma laranja, os pés descalços, sem nenhum compromisso chato à nossa espera. A gente já brincou tanto de faz-de-conta quando era criança, onde foi que a gente esqueceu como se chega a esse lugar de inocência? Fala da lua que você admirou outra noite dessas, no céu. Da borboleta que lhe chamou à atenção por tanta beleza, abraçada a alguma flor, como se existisse apenas aquele abraço. Diz se quando você acorda ainda ouve passarinhos, mesmo que não possa identificar de onde vem o canto. Diz se a sua mãe cantava para fazer você dormir.

Senta perto e me conta o que você sentiu quando viu o mar pela primeira vez e o que sente quando olha pra ele, tantas vezes depois. Se tinha jardim na casa da sua infância, me diz que flores riam por lá. Conta há quanto tempo não vê uma joaninha. Se tinha algum apelido na escola. Se consegue se imaginar bem velhinho. Fala da sua família, a de origem ou a que formou. Das pessoas que não têm o seu sobrenome, mas são familiares pra sua alma. Fala de quem passou pela sua vida e nem sabe o quanto foi importante. Daqueles que sabem e você nem consegue dizer o tamanho que têm de verdade. Fala daquele animal de estimação que deitava junto aos seus pés, solidário, quando você estava triste. Diz o que vai ser bacana encontrar quando, bem lá na frente, olhar para o caminho que fez no mundo, em retrospectiva.

Podemos falar abobrinhas, desde que sejam temperadas com riso, esse tempero que faz tanto bem. A gente pode rir dos tombos que você levou na rua e daqueles que levou na vida, dos quais a gente somente consegue rir muito depois, quando consegue. A gente pode rir das suas maluquices românticas. Das maiores encrencas que já arrumou. Das ciladas que armaram para você e, antes de entender que eram ciladas, chegou até a agradecer por elas. A gente pode rir dos cárceres onde se prendeu e levou um tempo imenso pra descobrir que as chaves estavam com você o tempo todo. Das vezes em que se sentiu completamente nu diante de um Maracanã, tamanha vergonha, como se todos os olhos do mundo estivessem voltados na sua direção. Das mentiras que contou e acreditaram com facilidade. Das verdades que disse e ninguém levou a sério.

Não precisa ter pauta, seguir roteiro, deixa a conversa acontecer de improviso, uma lembrança puxando a outra pela mão, mas conta de você e deixa eu lhe contar de mim. Dessas coisas. De outras parecidas. Ouve também com os olhos. Escuta o que eu digo quando nem digo nada: a boca é o que menos fala no corpo. Não antecipe as minhas palavras. Não se impaciente com o meu tempo de dizer. Não me pergunte coisas que vão fazer a minha razão se arrumar toda para responder. Uma conversa sem vaidade, ninguém quer saber qual história é a mais feliz ou a mais desditosa.

Hoje eu quero conversar com um amigo pra falar também sobre as coisas bacanas da vida. As miudezas dela. A grandeza dela. A roda-gigante que ela é, mesmo quando a gente vive como se estivesse convencido de que ela é trem-fantasma o tempo inteiro. Um amigo pra falar de coisas sensíveis. Do quanto o ser humano pode ser também bondoso, honesto, afetuoso, divertido e outras belezas. Dos lugares onde nossos olhos já pousaram e daqueles onde pousam agora. Um amigo para conversar horas adentro, com leveza, de coisas muito simples, como a gente já fez mais amiúde e parece ter desaprendido como faz. Um amigo para se conversar com o coração.

E se não quisermos, não pudermos, não soubermos, com palavras, nos dizer um pouco um para o outro, senta ao meu lado assim mesmo. Deixa os nossos olhos se encontrarem vez ou outra até nascer aquele sorriso bom que acontece quando a vida da gente se sente olhada com amor. Senta apenas ao meu lado e deixa o meu silêncio conversar com o seu. Às vezes, a gente nem precisa mesmo de palavras.


Wanda Wenceslau

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Hoje(1)




Hoje eu não quero conversas vestidas de uniforme. Diálogos impecavelmente arrumados que não deixam o coração à mostra. As palavras podem sair de casa sem maquiagem. Podem surgir com os cabelos desalinhados, livres de roupas que as apertem, como se tivessem acabado de acordar. Dispensa-se tons acadêmicos, defesas de tese, regras para impressionar o interlocutor. O único requinte deve ser o sentimento. É desnecessário tentar entender qualquer coisa. Tentar solucionar qualquer problema. Buscar salvamento para o quer que seja.

Hoje eu não quero falar sobre o quanto o mundo está doente. Sobre como está difícil a gente viver. Sobre as milhares de coisas que causam câncer. Sobre as previsões de catástrofes que vão dizimar a humanidade. Sobre o quanto o ser humano pode ser também perverso, corrupto, tirano e outras feiúras. Sobre os detalhes das ações violentas noticiadas nos jornais. Não quero o blablablá encharcado de negatividade que grande parte das vezes não faz outra coisa além de nos encher de mais medo. Não quero falar sobre a hipocrisia que prevalece, sob vários disfarces, em tantos lugares. Hoje, não. Hoje, não dá. Não me interessam o disse-que-disse, os julgamentos, a investigação psicológica da vida alheia, os achismos sobre as motivações que fazem as pessoas agirem assim ou assado, o dedo na ferida.

Hoje eu não quero aquelas conversas contraídas pelo receio de não se ter assunto. A aflição de não se saber o que fazer se ele, de repente, acabar. O esforço de se falar qualquer coisa para que a nossa quietude não seja interpretada como indiferença. Hoje eu não quero aquelas conversas que muitas vezes acontecem somente para preenchermos o tempo. Para tentarmos calar a boca do silêncio. Para fugirmos da ameaça de entrar em contato com um monte de coisas que o nosso coração tem pra dizer. Além do necessário, hoje não quero falar só por falar nem ouvir só por ouvir. Que a fala e a escuta possam ser um encontro. Um passeio que se faz junto. Um tempo em que uma vida se mostra para a outra, com total relaxamento, sem se preocupar se aquilo que é mostrado agrada ou não. Se aumenta ou diminui os índices de audiência.

Wanda Wenceslau

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Ansiedade




Sim, eu estou ansiosa. E sofro um bocado por estar desse jeito. Na verdade, isto nem é estar, é ser mesmo, já que sempre fui assim. A minha ansiosidade já me levou a loucuras. As conseqüências são de domínio público. Mas o que em mim é ânsia, é também voracidade de viver. Um esforço gigantesco para acompanhar a aceleração do tempo. Porque o tempo passa cada vez mais rapidamente e é ínfima a parcela que percebo. Menor ainda a que retenho. Tudo é muito maior do que sou capaz. Por isso, sempre é ontem como queria o poeta. Estou sempre atrasada quando ao hoje. Ele esta acontecendo e eu ainda estou lidando com as coisas de ontem. Cada vez que penso, tudo cresce infinitamente. Não consigo dar conta. Aprendo hoje e a memória que carrego de ontem se complexifica. Bato asas desesperada e poucas vezes sou saciada em minha sede de estar além, naquilo que ainda não sou. Já é pequena a esperança de um dia chegar a ser. Enxergo a mim mesma como um ser entre o ontem e o amanhã. Erro sempre no que me projeto, mas não me perco de mim. Prefiro ficar perdida, mas em mim. Sinto saudades da parte do tempo que perco e não consigo aproveitar. Questiono-me: o que me falta?


Wanda Wenceslau

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

A fé move montanhas






Um grande sábio e mestre falou esta frase há muitos, muitos anos atrás. O que ele não sabia, ou até talvez soubesse, é que todos estes anos depois, o homem continua com o mesmo problema: a falta de fé.

Eu atendo pessoas o tempo todo. E o que mais vejo é como todo mundo tem pouca fé nas coisas, nas pessoas, em Deus, no Universo, no invisível. Hoje mesmo vi um colega tendo uma síncope quando uma pessoa apareceu para alugar um salãozinho que ele tem. A pessoa veio munida de todos os seus documentos, fotos, registros em cartório e os documentos da franquia que pretende abrir. Meu colega chegou a ser rude com ele, pedindo toda a documentação. Olhou feio, fez pouco caso, como se aquele fosse um assassino em série querendo abrir uma loja de cama/mesa e banho. Começou a viajar no acontecimento. Pensou tanto, tanto e em tantas fantasias que se viu, lá pelas tantas, tentando descobrir uma maneira de conseguir um mandato de busca e apreensão dos seus bens. Na cabeça dele toda a história estava pronta: ele é uma pessoa de má índole que quer me prejudicar. O resto foram as fantasias, todos os filmes que ele viu, todos os livros que leu e toda a desconfiança no resto da humanidade que ele ainda carrega. Complicado!

Claro que não estou dizendo que devemos ser ingênuos e acreditar em todas as lorotas que nos contam. Claro que as nossas metas precisam respeitar os seus limites, assim como nós, humanos, estamos encarcerados no limite do nosso corpo, do nosso espaço, da nossa vida. Não existem santos e demônios. Existem sim, os dois arquétipos dentro de nós mesmos.

Pois bem, mas o que custa dar um voto de confiança para uma pessoa que está provando, por documentação, que é idônea? A falta de fé na humanidade. E, claro, a falta de fé na humanidade pode nos levar a todo feito de falta de fé. Em Deus, naquilo que queremos para o nosso futuro, na vida após a morte e, principalmente, que o Universo sempre está do nosso lado.

Não acreditamos mais. Queremos cada dia mais provas. Provas que podemos confiar no amor de alguém. Precisamos ouvir 120 vezes "Eu te amo" no mesmo dia para entender que, talvez, aquele cara realmente nos ame. Precisamos ver na balança que emagrecemos o suficiente. Precisamos caber no vestido PP, que prova que somos magras. Provas, procuramos provas e restígios numa religião nova chamada ciência. A ciência sim acaba com a fé, quando nos faz perder a fé em si e procurar provas dentro da gente.

Precisamos nos provar o tempo todo. Relacionamos a nossa vida como uma lista bem definida (campo sentimental, intelectual, financeiro, profissional, etc..). Quanto maior a neurose, maior é a lista. E sim, precisamos ter tudo. E precisamos ter tudo bem. E o tempo todo. Até admitimos que possamos não nos sentir muito bem por, sei lá, cinco minutos ou dez, mas não mais do que isso. Não temos tempo de não sermos felizes. Precisamos ser felizes aqui, agora e sempre.

E nem sabemos o que diabos é a tal da felicidade. Só imaginamos que quando a nossa lista estiver completa, aí sim, podemos pensar em ser felizes. Só que tem só um pequeno detalhe: a nossa lista é infinita. E cada vez que chegamos a um determinado ponto, percebermos que temos que avançar duas casas no jogo da vida, ou ficaremos para trás. Comparamos-nos com todos ao nosso redor. Olhamos as idades das atrizes de TV, mesmo que a maioria esteja dizendo uma baita mentira, e pensamos em nós com aquela idade. "Quando eu tiver 60 quero ser como a Angela Vieira". Pois é, só esquecemos que nós não somos a Angela Vieira, nem vegetarianas, nem fazemos 300 abdominais por dia, e não estamos nem aí mandando ver no churrascão de domingo. Queremos um sonho de pessoa que não somos. Aí, de noite, nos sentamos e rezamos a Deus que nos ajude a ficar magra, a ser saudável, a ter boas idéias, bons filhos, excelentes casamentos e muito dinheiro no banco. Tudo isso com a barriga empanturrada de macarrão, sem fazer uma caminhada até a padaria há dois anos e depois de uma pequena farra de compras no shopping, "porque a gente merece".

E ainda me vem falar que Deus não atende aos seus pedidos?

Deus, ou o Universo, como eu gosto de chamar, é uma energia que sempre, sempre, sempre está do nosso lado. Se ele nos vê relaxada, gastando à vontade e depois ficando culpadas, ele nos dá culpa e mais dívidas. Se ele nos vê procurando o cara mais canalha do bar para se interessar, ele arruma um pior do que o outro. Ele só faz o que você faz e não o que você pede. Pedir não adianta de nada. Ao invés de pedir, faça. Faça a sua parte e só depois espere pelo resultado. Aí sim, você poderá falar que o Universo não está colaborando e tem alguma coisa errada. Mas, do contrário, não acontece isso.

Outro dia mesmo eu queria uma vaga em frente a um banco que só tem uma única vaguinha na porta. Fechei os olhos e pensei numa situação ideal. Claro, fui numa boa, sem pressa e sem estresse, porque simplesmente sabia e confiava. Quando eu cheguei, o carro parado na vaga estava saindo. Perdi a conta das vezes em que isso aconteceu comigo. E as vezes que isso aconteceu com outras pessoas que também passaram a acreditar nisso. Isso é a verdadeira fé. Não é ficar como joelho esfolado na igreja, mas sim sentir Deus no fundo do seu coração. Sentir que você é uma energia maior e perfeita. E que é até uma sacanagem você se achar imperfeito já que 90% do seu material é divino. Você é a representação de Deus, é onde ele se manifesta. Ele não pode trocar um sapato na loja sem você. Ele não pode decorar a sala sem você. Ele não pode ajudar um cão faminto sem você. Você é um porta-voz de Deus. Você é alguém para o qual ele passou uma procuração de viver todas as experiências da vida. As boas e as ruins. As que causam conforto e as que doem os seus pés e o seu coração. O resto é um monte de besteira que colocamos na cabeça e que o nosso diabo (interno) teima em nos dizer. E é isso que Jesus, Maomé, Buda, Osho, todo mundo quis dizer até hoje. Simplesmente seja Deus. Acorde Deus e durma Deus. Viva Deus e morra Deus. Ninguém no planeta é menos do que isso.

Acorde para o seu Deus interior e entenda que a sua fé pode sim mover as montanhas.


Andrea Pavlovitsch 

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Doida ou Santa?


DOIDA OU SANTA?

“Estou no começo do meu desespero e só vejo dois caminhos: ou viro doida ou santa”.
São versos de Adélia Prado, retirados do poema A Serenata. Narra a inquietude de uma mulher que imagina que mais cedo ou mais tarde um homem virá arrebatá-la, logo ela que está envelhecendo e está tomada pela indecisão - não sabe como receber  um novo amor não dispondo mais de juventude. E encerra:  “De que modo vou abrir a janela, se não for doida? Como a fecharei, se não for santa?”
Adélia é uma poeta danada de boa. E perspicaz. Como pode uma mulher  buscar  uma  definição exata para si mesma, estando em plena meia-idade, depois de já ter trilhado uma longa estrada onde encontrou alegrias e desilusões,  e  tendo  ainda  mais  estrada  pela frente?  Se ela tiver coragem de passar por mais alegrias e desilusões - e a gente sabe como as desilusões devastam - terá que ser meio doida. Se preferir  se abster de emoções fortes e  apaziguar  seu  coração, então a santidade é a opção. Eu nem preciso dizer o que penso sobre isso, preciso?
Mas vamos lá. Pra começo de conversa, não acredito que haja uma única mulher no mundo que seja santa.. Os marmanjos devem estar de cabelo em pé: como assim, e a minha mãe??? Nem ela, caríssimos, nem ela.
Existe mulher cansada, que é outra coisa. Ela deu  tanto  azar  em suas relações que desanimou. Ela ficou tão sem dinheiro de uns tempos pra cá que deixou de ter vaidade. Ela perdeu tanto a fé em dias melhores  que  passou  a  se  contentar  com  dias  medíocres. Guardou sua loucura em alguma gaveta e nem lembra mais.
Santa mesmo, só Nossa Senhora, mas cá entre nós, não é uma doideira o modo como ela engravidou? (não se escandalize, não me mande e-mails, estou brin-can-do).
Toda mulher é doida. Impossível não ser. A gente nasce com um dispositivo interno que nos informa desde cedo que, sem amor, a vida não vale a pena ser vivida, e dá-lhe usar nosso poder de sedução para encontrar 'the big one', aquele que será inteligente, másculo, se importará com nossos sentimentos e não nos deixará na mão jamais. Uma tarefa que dá para ocupar  uma vida, não é mesmo? Mas, além disso,temos que ser independentes, bonitas, ter filhos e fingir de vez em quando que somos santas, ajuizadas, responsáveis, e que nunca, mas nunca,   pensaremos  em jogar tudo pro alto e embarcar num navio-pirata comandado  pelo  Johnny  Depp, ou então virar uma cafetina, sei lá, diga aí uma fantasia secreta, sua imaginação deve ser melhor que a minha.
Eu só conheço mulher louca. Pense em qualquer uma que você conhece e me diga se ela não tem ao menos três dessas qualificações: exagerada,dramática, verborrágica, maníaca, fantasiosa, apaixonada, delirante.Pois então. Também é louca. E fascina a todos.
Todas as mulheres estão dispostas a abrir a janela, não importa a  idade  que   tenham. Nossa insanidade tem nome: chama-se Vontade de Viver até a Última Gota. Só as cansadas é que se recusam a levantar da cadeira para ver quem está chamando lá fora. E santa, fica combinado, não existe. Uma mulher que só reze, que tenha desistido dos prazeres da inquietude, que não deseja mais nada? Você vai concordar comigo: só sendo louca.


 Martha Medeiros

A SERENATA
           Adélia Prado
Uma noite de lua pálida e gerânios
ele viria com boca e mãos incríveis
tocar flauta no jardim.
Estou no começo do meu desespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.
Eu que rejeito e exprobo
o que não for natal como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos,
a pele assaltada de indecisão.
Quando ele vier, porque é certo que vem,
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
- só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela, se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?