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domingo, 28 de fevereiro de 2010

Conversa de Domingo


Uma coisa é o que se é, outra é o que os outros pensam que somos e outra é o pensamos que somos . Isso dá a dimensão da complexidade humana.
Conhecer-se é uma tarefa muito complicada. Para muitos até impossível, pois demanda em se estar aberto à visão dos nossos próprios defeitos,coisas que não gostamos de admitir , principalmente diante dos outros , mas também para nós mesmos. Nossa tendência é sermos complacentes com nossos defeitos e ver nossas qualidades em primeiro lugar. Isso nos torna vulneráveis. Somos educados para o certo e o errado e aí a flexibilidade é mínima .Aquilo que nos ensinam desde a infância é a mala pesada que carregamos pela vida afora. Chega a hora que o peso torna-se insuportável e precisamos aliviar a bagagem , senão como viver?
Poucas são as pessoas que conseguem buscar dentro de si a coragem suficiente para aliviar esse peso, transformado com o tempo em culpas e medos, dois perigosos acompanhantes que nos perseguem por toda vida. Quanto mais culpas mais medos. É o terror instalado nas pessoas impedindo-as de viver suas experiências, de usufruir de seu direito à liberdade e consequentemente de serem felizes;
Foi assim comigo e acredito ser com todo mundo.
Tive que aprender a diminuir a carga da minha mala. Muitas vezes me desfiz de peças que mais tarde percebi que faziam falta, mas só restava perguntar a mim mesma em que ponto do caminho eu as havia jogado fora e em que lugar estariam hoje e, se as encontrasse, qual seria o estrago que o tempo fizera nelas.. Melhor seguir adiante e tentar acertar. Eu disse "tentar”, pois é isso que se faz. É muito difícil ter –se certeza do caminho a seguir , da escolha melhor a ser feita em dado momento.
Há quem diga "que a vida é simples como um copo d'água" mas os conceitos que a educação nos impõe não nos permitem essa simplicidade toda. Acabamos por nos enredar na teia que primeiro nos é imposta e depois nós mesmos a reforçamos, com receio da opinião dos outros a nosso respeito. Uma das primeiras lições que nos ministram é a da subserviência , como se nossa sobrevivência dependesse do que pensam ou deixaram de pensar sobre nós. Livrar-se disto é onde reside a diferença que fará com que o resultado se altere mesmo que a longo prazo. E assim a vida vai se desenrolando.
O tempo passa , as marcas que ele deixa em nosso rosto aumentam, a mala até já não nos parece mais tão pesada.Mesmo que nossas forças já não tenham o vigor da juventude ,agora temos o suporte que vem da sabedoria , da vida curtida .Já não nos preocupa tanto a opinião alheia e tudo fica meio que parecendo ter sido em vão..
Mas é assim que é .Uma trajetória que nos torna pessoas melhores.Não há involução, afirmam os estudiosos. Não há como escapar das lições da vida., e neste processo de aprendizagem contínua é que formulamos os conceitos acerca de nós mesmos.Cada um de nós pensa algumas coisas de si, muitas vezes inconfessáveis. Temos medo de admitir quem somos perante o outro. Evoluir é também despir-se sem medo e sem culpa, é dizer a si mesmo que se conhece , que se percebe, que se admira e se admite. Nem melhor nem pior que seu vizinho de estrada, mas como alguém que soube a hora certa de jogar fora o que mais pesava na sua mala.

Maria Alice Guimarães

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Vida triste.



Dona Chica arrasava na pequena Vila Cananéia . Era neta de índios e como ela mesma dizia, a avó tinha sido caçada a laço pelos colonizadores .
Era uma mulher valente e brigona.Andava com cinturão e revólver na cintura.Ninguém a enfrentava.Diziam que ela já havia baleado pessoas e que sempre saia impune porque era amante de um poderoso fazendeiro.
Montava à cavalo como ninguém! Nada a intimidava, era mais "macho" que qualquer homem da localidade, o pior que isso ,diziam alguns, era o demônio em pessoa!
Essas atitudes assustadoras renderam-lhe a alcunha de Chica Terror. Ela sentia-se poderosa e gostava de ver que as pessoas tinham-lhe medo
O marido, um pobre coitado que vivia sob suas ordens, era tratado como cão.Um escravo que não levantava a voz e nem o olhar para enfrentar quem quer que fosse.
Morria de medo da mulher, dando razão aos boatos de que ele apanhava dela.
Dessa união santo x demônio, nasceu a criatura mais angelical que se conheceu por aqueles arredores;Isabel. A menina cresceu sob o jugo impiedoso da mãe e sobre a proteção angelical do pai. Era uma moça muito prendada que sabia cuidar da casa, fazer quitutes e costurar como ninguém! A brutalidade da mãe causou-lhe uma deficiência.Foi um dia quando Chica a pegou conversando um moço no portão.Ali mesmo desferiu-lhe um soco no ouvido que traumatizou o tímpano , infeccionou e afetou o outro ouvido deixando-a praticamente surda.
Isabel vivia encolhida na sua timidez e no seu medo.
Um dia , um dos rivais de Chica  , para vingar-se dela, esperou na estrada quando Isabel,  ainda  adolescente,  vinha  da escola, arrastou-a para um matagal e  a estuprou.
A jovem nada contou à mãe,nem a ninguém, até que o próprio estuprador,durante uma bebedeira, gabando-se do feito de ter "dormido" com a filha da arquiinimiga, fez com que Chica ficasse sabendo e fosse tirar a limpo a história com a filha , esta  lhe revelou o ocorrido.
Tomada por ódio extremo, Chica, armada até os dentes, foi até o sitio do inimigo, encontrando-o bêbado, desferiu-lhe oito tiros a queima-roupa.
Por este crime ela não pagou! Na época e no lugar em que estavam, era só um jeito de lavar a honra, alegaram legitima defesa e ela não ficou na cadeia um só dia.
Agora existia um problema! Quem iria querer casar-se com a desonrada Isabel? O noivo rico vindo da cidade que Chica vivia espalhando aos quatro ventos que iria arrumar para filha? Não, é claro! Tudo teria que ser arrumado à maneira dela.
__Vou para São Paulo e lá acharei alguém, idiota o suficiente para casar com uma moça desonrada.
Rumou para a casa do irmão , num bairro afastado do centro da cidade e no caminho mesmo, passando pela chácara de Dona Dolores, conheceu o jovem José.
O rapaz tinha uma aparência bonita, cabelos aloirados, olhos verdes, pele muito branca, e Chica aproximou-se , percebeu que ele tinha alguma deficiência mental, conversava e portava-se como uma criança, apesar dos seus trinta e poucos anos.
Chica começou uma amizade com  Dona Dolores para assuntar sobre o rapaz e descobriu que ele tivera meningite quando criança e que esta tinha-lhe afetado a mente,  porém, por influência de uns conhecidos , ele havia arrumado emprego e trabalhava na prefeitura no setor de coleta de lixo.
Perfeito! Pensou Chica,este é o marido para a minha filha!
O rapaz que vivia revoltado porque os seus irmãos mais novos  já haviam se casado e ele não conseguia arrumar uma parceira, ao ouvir a palavra casamento, exultou como uma criança de dez anos que ganharia uma bola de futebol.
Nada houve que fizesse Chica desistir de arranjar o casamento dos dois, Isabel e José.
Como quem está sendo levada ao cadafalso da forca, Isabel aceitou casar-se com José.
A festa foi maravilhosa, sacrificaram um boi, um porco e várias galinhas para o almoço com mais de duzentos convidados, pois a Vila inteira havia de ver que a filha de Chica Terror, estava casando-se com um homem da capital, que  tinha emprego  na prefeitura.
Todos devemos imaginar como foi a vida de Isabel, com a mãe com um perfil daqueles  e um marido com muitos problemas mentais e comportamentais.
Chica , mesmo com a evolução da Vila, continuava sendo o terror dos moradores.Seu marido faleceu logo após o casamento da filha, diziam que morreu de pena.
Chica morreu muitos anos depois deixando a filha e cinco netos.
Isabel, doce  e meiga criatura, conviveu com o marido por mais quarenta anos, até a morte dele.
Hoje vive na casa da única filha mulher que teve e agora livre do terrorismo da mãe e da insanidade do marido, procura esquecer a triste vida que viveu.
Existem pessoas assim, como Chica, que se julgam donas da vida das outras pessoas.Quer seja com arma de fogo ou com palavras e atitudes,  subjugam as pessoas em sua volta comandando-lhes as vidas.
Existem pessoas como Isabel, que nunca percebem que podem tomar nas mãos as rédeas da própria vida e mudar sua história.Se Isabel tivesse recusado casar-se com José e se tivesse  se lançado ao mundo em busca da felicidade, por mais que sofresse, não teria sido tão infeliz como foi aceitando a imposição da mãe.
Esta história eu presenciei aos sete anos de idade e acompanhei até o seu desfecho, que considero seja,  a morte de José.

Wanda Wenceslau

domingo, 21 de fevereiro de 2010

João e Maria



"E pela minha lei

A gente era obrigado a ser feliz"

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Culpa.




As pessoas têm a mania de procurar culpados para tudo o que acontece em suas vidas..Logo em seguida apontam o dedo e indicam alguém.Eu também já fui assim.
_Por culpa de fulano eu não fiz o curso de psicologia  ou Por sua causa eu deixei de jogar naquele time..
Será mesmo?
O fulano não facilitou nada para você fazer o curso mas é você que deveria saber a importância dele na sua carreira e na sua vida.
Ela não queria que você jogasse no time dos amigos, mas você permitiu que ela mandasse na sua vontade.
O sujeito com qual você se envolveu era um canalha? Era! Mas a culpa é sua de não ter percebido o caráter dele.
Não tente culpar os outros, você usou sua inteligência, sua visão, sua observação, seus olhos e seus ouvidos e se não percebeu é porque era melhor ignorar.
Porque era mais vantajoso para você fazer que não percebia.
Não devemos ficar esperando que os deuses resolvam nossos problemas.Que venham consertar os nossos erros e assumir as nossas responsabilidades.
Ninguém, a não ser nós mesmos, somos responsáveis por nossas escolhas e atitudes, porque ninguém na verdade tem obrigação de construir ou facilitar nossos caminhos.
Não podemos permitir que os outros nos avaliem e que destruam nossa auto-confiança.Eu sei quem sou! Sei o que sinto.Qual é meu caráter. O que mereço receber em troca  do meu posicionamento perante a sociedade, aos amigos e à família.
Quem assume por inteiro a própria vida, suprime a obrigação de se curvar, de se humilhar, de mendigar.
Depender apenas de si mesmo e não precisar de fazer concessões, pois quem não espera nada, não pode temer a perda de coisa alguma.
Eu não sei porque cargas d'água eu ainda  me admiro quando alguém faz algo que a minha intuição esperava que ela fizesse exatamente o que acabou fazendo.
A culpa é toda minha.Eu escolhi.Ficou escolhido.Escolhido está.
É como num filme : se é tragédia é para chorar, se é comédia é para rir
Eu fiz o roteiro, eu sou a protagonista, e nem espero receber aplausos no fim.
Wanda Wenceslau

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Esperando o Carnaval



O Carnaval

    Chegou, finalmente, que ninguém é de ferro para suportar as amarguras do ano inteiro. E não chegou para um descanso ou para meditações, senão que para exorcizar as inseguranças e os fantasmas que rondaram as nossas portas como animais ameaçadores.
    Lazer não é novidade. A humanidade sempre teve suas grandes festas ao lazer. O próprio Noé, está na Bíblia, tomou um porre de vinho e desnudou-se, depois de embriagado. Recoberto pelo filho, com um lençol, terminou por castigá-lo alegando que estava fora da sua consciência. Baco (Dionísio ), deus do vinho e filho de Júpiter, conquistou a Índia acompanhado de homens e mulheres tendo como armas de guerra apenas alguns tambores. Suas festas eram escandalosas e acompanhadas por ninfas, sátiros, pastores, pastoras, sem contar, claro, as Bacantes - suas sacerdotisas. Daí o termo " bacanais ", até hoje usado para festas orgíacas. Consta que Baco fundou a primeira escola de música. Também era chamado de Liber (Livre), uma vez que suas orgias eram incontroláveis pois o vinho libera os instintos. Do seu nome "Livre" surgem as "festas liberais" e o carnaval é uma delas. Condenado por Juno à loucura Baco andou vagando pelo mundo.
    Os tamborins estão esquentando. E logo, no Rio de Janeiro, as mulatas descerão o morro, lindas, torneadas, os corpos reluzentes à luz do sol, ou à luz dos refletores, inigualáveis e enveredarão pela avenida acompanhadas dos sambas-enredo. Enlouquecerão a multidão, contorcionando-se nos mistérios dos sons e dos seus músculos como sacerdotisas de um culto sagrado, sensual e misterioso, revelando o segredo de um aprendizado somente ensinado nas escolas de samba.            
    Muitas terão os corpos recobertos de purpurina, não para esconderem algum pudor que o tempo envelheceu, mas para aguçarem os instintos visuais ansiosos pelas novas fronteiras da sensualidade. Depois virarão "estrelas da avenida e da televisão". Não importa a grandeza: se de primeira, de segunda ou de terceira.  Mas simplesmente estrelas. E perturbarão as noites de solidão e lazer dos homens apaixonados, estremecendo os seus amores e as suas vidas - esses estágios obrigatórios da fantasia da existência.
    Em algum salão alguém ainda poderá dizer: "Vou beijar-te agora \ Não me leve a mal \ Hoje é carnaval !...", ante os vapores do álcool, a fumaça dos cigarros, o vôo das serpentinas e o pouso suave dos confetes sobre os planos de cimento onde estrondam os passos cadenciados da multidão enlouquecida. E algum Pierrô ainda poderá estar andando e chorando pelo amor de alguma Colombina, pausa necessária para as máscaras, os eflúvios, as lágrimas, os sorrisos, as mentiras e as juras de amor.
    Depois virão as cinzas. O silêncio das ruas. As olheiras. O despertar. Algumas deslembranças. Muitas saudades. Talvez alguns arrependimentos. Mas sobretudo porque valeu a pena. A pena de haver passado o ano inteiro vigiando esperanças, aparando amarguras, contornando desencantos e sabendo-se que a vida está se extinguindo lentamente.
    E num lugar qualquer, quem sabe, alguém ainda poderá dizer ao ser apresentado a outrem:

    - Engraçado, tenho a impressão de que lhe conheço !

    E até mesmo ouvir de uma voz melancólica, como nos velhos carnavais
    - Eu sou aquele Pierrô que te abraçou e te beijou !

    E quem sabe, nessa hora, poderá estar nascendo uma linda história de amor.


*(Eu conheço casais que se conheceram num Carnaval e que vivem felizes há decadas.)*

Wanda Wenceslau

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Velhas amigas








Hoje revi uma amiga que não via há uns vinte anos.Foi bom ouvir o som da voz  dela novamente , sentir a mesma aproximação de antes,  a mesma simpatia e notar que essa amiga é o arquivo vivo do meu  passado.A maneira da pessoa nos enxergar é o que somos  , pelo menos para aquela pessoa.Ela nos conta do seu  jeito as nossas histórias.
Pode-se ter envelhecido um pouco, trocar a cor dos cabelos, emagrecer ou engordar, mas o olhar e o jeito de falar não mudam.
Rever amigos antigos é como viajar no tempo, relembrar fatos que não existiam mais nas nossas memórias  mas que vão saindo de trás da neblina do esquecimento e vão tomando vida e cor.
Lembrar de ruas vestidas de sonhos.Casas pintadas de magia.Campos e bosques perfumados de lavanda.Conversas repletas de fantasia.Lágrimas derramadas por amor.Sonhos que não se realizaram e vida que  passou.
Quando recordamos nossa juventude, parece que foi ontem,cada detalhe parece estranhamente recente como a sobremesa do almoço de hoje.
Sonhei acordada por longas horas em companhia dessa velha amiga.Lembrei  minha adolescência, minhas alegrias e meus traumas.Lembrei meu inicio de vida adulta, meu começo de vida propriamente dito. Hoje vivi num filme em preto e branco, onde  se misturavam comédia, aventura, drama, ficção e romance.No bem da verdade, foi um documentário, onde não havia heróis nem heroínas, só havia gente.
Nas conversas queríamos citar alguns amigos do passado, quando eu esquecia o nome de algum ela lembrava e vice-versa.
Passeamos por muito tempo nos caminhos da saudades.Recordamos pessoas , frases, situações.Rimos e choramos.
Cabe bem a  frase : "Amigos são irmãos que escolhemos"
É bem assim, nos sentimos em família quando estamos junto dos amigos de verdade.
Amiga, quando você ler isto, saiba que foi muito  bom revê-la e que vinte anos não passaram, parece que estivemos próximas este tempo todo, sabe por quê?Porque amigos de juventude nunca partem, estão sempre junto de nós em nossas lembranças.Espero outra tarde, outro café, outro momento "vale à pena ver de novo"......

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Partir


Malas prontas, despedidas. Meu último dia de férias em SãoPaulo, meu pai à porta me acenando. Lágrimas que não deixo que ele veja. O carro me levando ao Aeroporto Internacional de Guarulhos e o check in é feito enquanto o amigo da família me espera no saguão. Mais despedidas e, então, estou só, andando por corredores infindáveis que me levam mais longe de São Paulo a cada passo, do burburinho da minha cidade, das bancas de jornais ao sol, dos trens do metrô que cortam a cidade apinhados de gente, da gritaria dos camelôs no centro, das montanhas ao longe, das palmeiras acenando.

Chego à sala de embarque, onde já muitas pessoas esperam avião da Alitalia e ali começamos a fazer amizades. Conheci a Maria, a Cleia, vários jovens viajando para o exterior pela primeira vez, para quem só teria um conselho se fosse pedido: Viaje, mas volte para a sua terra. Não fique por lá...

Horas se passam, vamos comer alguma coisa na lanchonete, peço o último guaraná, choro abertamente quando a lata termina, ao lado das novas amigas, que não entendem, não entendem... afinal, elas se vão por quinze dias, um mês....

Finalmente, vem o anúncio que a companhia aérea não irá fazer o voo esta noite, iremos todos para um hotel. As malas já estão sendo tiradas do avião, deveremos fazer o check in novamente amanhã à tarde. Todos reclamam, vão processar a companhia, prometem nunca mais viajar por esta linha aérea. Eu, no entanto, crio alma nova: mais uma noite no Brasil, mais uma noite embaixo do céu de São Paulo.

Confusão impossível de descrever até perto da meia noite, quando chegamos ao hotel, arrastando malas, arrastando a nós mesmos para o restaurante iluminado onde finalmente vamos jantar. A estas alturas, o grupo de viajantes formou um elo entre si. Parece que nos conhecemos por anos. Virou convescote, virou jantar entre amigos com muita risada e conversa fiada. Já se sabe o nome da maioria, já se divide o compartilhamento dos quartos. Tiram-se fotos de grupos sorrindo, embora caindo de cansaço.

Compartilho um quarto com a Maria, conversamos até às 3 da manhã.

Oito horas, o grupo já chega para o café. Uns acenam para os outros de longe, juntam-se mesas, o convescote continua. Parece até que esquecemos o motivo de estarmos no hotel, o avião que nos espera na pista às 3 da tarde. E ainda temos um almoço no hotel antes de sairmos! Planejo tomar mais guaraná...

Com tempo livre, resolvo sair do hotel, mas não muito longe, como nos foi pedido pela companhia aérea. Saio sózinha, para curtir meu dia extra, meu dia de bônus, meu dia de presente em São Paulo. Eu, que já deveria estar sobrevoando o continente europeu, ainda estou com o pé no chão do meu país, pisando as calçadas ensolaradas, vestindo uma camiseta, um shorts e sandálias havaianas, meu uniforme preferido.

Ando à toa, telefono do orelhão para o meu pai, muito surpreso de ouvir a minha voz ainda do Brasil, aí vou a um supermercado onde compro ainda mais alguns sabonetes Phebo (trouxe uns cinquenta). Atravesso uma pracinha cheia de árvores floridas, demoro olhando as flores em tons de rosa e lilás, converso com uma família carregando uma criança no colo, ando pelo bairro todo, entrando em lojinhas e padarias, sentindo o cheiro do pão novo, me despedindo.

As pessoas em volta continuam no seu dia a dia. Chegarão em casa com as sacolas de compras, tomarão um café com a família e eu trocaria de lugar com qualquer um deles. Eu, devo voar. Devo sobrevoar o mar na escuridão e emergir da noite onde São Paulo não existe. Onde eu não existo.

Mas por algumas horas roubadas andei a esmo coletando pétalas do chão.

Lygia Martins de Souza