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domingo, 28 de agosto de 2011





Uma amiga querida, me disse uma coisa bonita que ficou anotada na memória: “Às vezes, a gente precisa se livrar um pouco da gente, isso sim é liberdade fina, das boas”. Pode ser mesmo bem libertador, de vez em quando, embora não seja lá um exercício fácil. Costumamos viver muito apegados à autoimagem, a tal Síndrome de Gabriela: “Eu nasci assim, eu cresci assim, e sou mesmo assim, vou ser sempre assim”. Sofremos, repetimos equívocos, ficamos apertados nos conhecidíssimos cômodos sem ventilação, mas o padrão antigo continua lá firme e forte, permeando nossas ações, projetando o mesmo filme entediante, dizendo quem manda no pedaço. Até com orgulho, que geralmente é puro medo, não ousamos um passo fora desse lugar, enquanto a vida aguarda a chance de nos mostrar o quanto pode ser vasta e rica de possibilidades além dele.
Wanda Wenceslau

terça-feira, 16 de agosto de 2011





PRESENÇA
É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos...
É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
as folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo...
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu sentir
como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida...
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato...
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te.
Mario Quintana

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Na clareza que liberta.


Ela poderia ter passado o resto da vida exatamente ali, esparramada na autopiedade. Lustrando as lembranças difíceis com zelo de quem guarda relíquias. Fazendo contas para medir o amor que ofereceu e o amor recebido. Atualizando todo dia a estatística das perdas e insucessos vividos. Esmiuçando, incansável, a história de cada traição sofrida. Envenenando-se com a substância tóxica da culpa. Morrendo de fome, com recursos para banquete, o medo desmatando lentamente territórios arborizados da alma, secando rios de delícias, amordaçando passarinhos, desmentindo flores.

Ela poderia ter passado o resto da vida exatamente ali, esparramada na autopiedade. Onde não corria vento, onde não batia sol, onde toda muda de alegria morria desidratada, onde só brotava pé de mágoa. Poderia, não porque ali fosse lugar aprazível, mas porque ali lhe parecia seguro. As insatisfações organizadamente acomodadas, os culpados escolhidos, as desculpas em dia, a escuta blindada para não ver o quanto o cansaço de toda aquela insipidez embotava o viço dos passos. Desmanchava estrelas. Esgarçava devagarinho o frágil tecido da paz. Ali, era mais fácil não arriscar movimento. Ali, era mais fácil esquecer que podia fazer escolhas. Ali, era mais fácil esquecer-se.

Mas a alma, sábia e habilidosa bordadeira de pretextos, quando encontrou brecha, arrumou um jeito de alumiar aquele lugar. Foi então que ela conseguiu enxergar exatamente onde estava com nitidez reveladora e também desconcertante. Fazia tempo, desconhecia o paradeiro do brilho dos seus olhos sem ter feito nenhum movimento para trazê-lo de volta. Estava profundamente infeliz e agiu durante temporadas como se isso não lhe dissesse respeito. Não fazia ideia da vez mais recente em que experimentara satisfação autêntica e até aquele momento sequer havia notado. Deu tanto poder aos outros para interferirem na sua alegria que esvaziara o próprio até a exaustão. Afastou-se tanto do coração e do seu desejo que encolhera-se, inerte, diante de cada golpe sofrido sem contar com a própria proteção. Esforçou-se de tal forma para se tornar interessante para o outro, que perdera o interesse por si mesma. Os sucessivos desapontamentos tentaram lhe dizer que não era merecedora de coisas que faziam toda diferença, e ela acreditou.

Na clareza que liberta, ao lembrar ser capaz de fazer escolhas pela própria vida, escolheu sair daquele lugar, passo a passo, gentileza a gentileza, no tempo que fosse necessário. Agora, poderia contar de novo consigo mesma. Renovar, gesto a gesto, o compromisso com o próprio coração. Sentir-se responsável pela própria felicidade com a confiança de quem recorda o que realmente mais lhe importa. E com uma vontade toda nova de, primeiro, desfrutar a dádiva da própria lindeza e do próprio amor.

Ana Jácomo

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Definição de saudades


Definindo :Saudade é uma lembrança cor-de-rosa  de um passado colorido.Sempre que lembro o passado ele me  convida a procurar cores, perfumes, silhuetas,sorrisos..A  minha juventude vem envolta numa lembrança cor-de-rosa, por mais difícil e triste que ela possa ter  parecido na época. Sempre lembro  o lugar onde vivi a minha juventude, como o mais lindo do mundo, porque, é sem dúvida, a melhor época de nossas vidas.Nas lembranças, os sorrisos vêm embalados em papeis de bombons. Os olhares parecem terem sidos tirados dos filmes de Rodolfo Valentino. As mãos são hábeis e acolhedoras. Os beijos são sinceros e provocantes. As danças são balés coreografados com romantismo.Os sonhos pareciam possíveis e o amor eterno.Como diz Peninha naquela música Sonhos;" Ter saudade até que é bom. É melhor que caminhar vazio".Olhando para trás, só com o passar dos anos conseguimos entender certas coisas do passado, eu percebo que, em vários momentos, parece ter acontecido o melhor para mim, embora não fosse  o que eu estivesse desejando no momento. Mesmo quando eu lamentava não estar acontecendo algo que eu desejava que acontecesse, eu estava sendo poupada de uma encrenca das grandes.Quero lembrar do meu passado assim: envolto numa nuvem cor-de-rosa, onde tudo era perfeito. O doce era mais doce. O puro existia. A vida tinha outro perfume, outra cor, outro sabor. Sabor da felicidade.Wanda Wencelau